COLUCCI | Eu não entendo essa gente, seu moço...
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o verso em que o eu lírico vislumbra uma fugidia possibilidade de cidadania ao ser presentada
com os documentos trazidos pelo filho, sentindo que poderia finalmente adquirir uma
identidade:
Chega suado e veloz do batente / Traz sempre um presente pra me encabular
/ Tanta corrente de ouro, seu moço / Que haja pescoço pra enfiar / Me trouxe
uma bolsa já com tudo dentro / Chave, caderneta, terço e patuá / Um lenço e
uma penca de documentos / Pra finalmente eu me identificar, olha aí! / Olha
aí! / Ai, o meu guri, olha aí! / Olha aí! / É o meu guri e ele chega [...] (Buarque,
1981).
A narradora tem um olhar amoroso e ingênuo sobre o filho, não compreendendo as suas
atividades. Ele rouba ou furta correntes, bolsas que vêm com documentos, e a reação inocente
da mãe ao receber esses presentes abre uma chave interpretativa sutil de que se trata de uma
mulher que não sabe ler, e que a possibilidade trazida por esses documentos é de finalmente
poder se identificar, em uma realidade burocrática em que ter documentos é existir.
As chances do guri estar podendo ter acesso a esses itens por meio de um emprego
convencional e, portanto, garantindo o sustento de sua família é remota, porém incute no eu
lírico a possibilidade de realização dos sonhos delineados na infância pelo jovem, de finalmente
“chegar lá”. Assim, estabelece-se uma relação de mãe e filho invertida, como se o filho fosse o
guia dessa mãe, tendo inclusive uma carga de responsabilidade maior do que da própria
genitora.
Adiante na canção, a quarta estrofe traz uma delimitação geográfica, ao falar sobre o
morro e a preocupação da mãe sobre o filho voltar para casa em segurança, apresentando a
insegurança de se viver em aglomerações precárias como as favelas em grandes centros
urbanos.
Chega no morro com carregamento / Pulseira, cimento, relógio, pneu,
gravador / Rezo até ele chegar cá no alto / Essa onda de assalto está um horror
/ Eu consolo ele, ele me consola / Boto ele no colo pra ele me ninar / De
repente, acordo, olho pro lado / E o danado já foi trabalhar, olha aí! / Olha aí!
(Ah, olha aí) / Ai, o meu guri, olha aí! (Ah, olha aí meu guri) / Olha aí! (Ah,
meu guri) / É o meu guri e ele chega (olha aí meu guri) (Buarque, 1981).
Percebe-se que o instinto maternal da narradora acarreta em uma resistência de
relacionar os presentes suspeitos e aleatórios trazidos pelo filho como pulseiras e relógios, com
a onda de assaltos que aflige os arredores. Ocorre uma acentuação da inversão de papéis
delineada na relação que ela tem com o filho, ao colocar o guri no colo, é ele quem nina a
própria mãe, ou seja, ela é mais ingênua e, portanto, mais passível de cuidado do que o próprio
filho.
Ainda, a forma como a narradora chama o filho de "danado", no sentido de esperto,
malandro, aponta para uma obsessão da lírica buarqueana de sempre abordar o universo dos
garotos, dos “pivetes”, guris malandros, referências que estão presentes em toda a produção