GARBOZA JÚNIOR | A destituição do progresso...
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jurídica qualquer, o pintor nunca viu ou ouvir falar de sua efetivação. E qualquer tentativa de
obtenção de uma absolvição real por meio da influência dissolveria a inocência do réu, de modo
que, nesta forma de absolvição, decide apenas a inocência do acusado.
A absolvição aparente, por sua vez, é uma forma de absolvição na qual o pintor poderia
influenciar. Trata-se de uma absolvição que requer um esforço concentrado, mas breve. Da
parte do pintor, ele se proporia a obter a assinatura de alguns juízes que costuma retratar em
um documento que atestasse a inocência de Joseph K. Convencendo alguns juízes a assinarem
o referido documento, o encaminharia para o juiz responsável pelo processo em questão e,
obtendo sucesso, garantiria a K. a absolvição. No entanto, não se trata de uma absolvição
definitiva, como a primeira, mas de uma absolvição aparente, ou temporária, que pode ser
modificada a qualquer tempo. A explicação desse estatuto incerto e efêmero é de que os juízes
que o pintor retrata e os quais pode influenciar são magistrados inferiores que, diferentemente
do tribunal superior, não podem absolver definitivamente, mas apenas aparentemente. A cada
descontinuidade desta absolvição seria necessário um novo esforço concentrado para se obter
uma nova absolvição aparente e, assim, sucessivamente.
O processo arrastado, terceira estratégia descrita por Titorelli, funciona a partir de uma
lógica inversa à absolvição aparente. Ao passo que essa se fundamenta em um esforço
concentrado e breve, o processo arrastado envolve um esforço menor, mas duradouro. Trata-
se de manter-se em permanente atenção em relação aos prazos e convocações processuais, de
se reportar regularmente ao juiz da instrução e de se manter, indefinidamente, sujeito aos
trâmites processuais. No entanto, apesar de a duração deste processo arrastado não ser
passível de definição, há uma certeza muito maior de que o acusado será preservado das súbitas
detenções. Sua obediência permanente o protege do esporádico exercício do poder.
Analisando esta classificação kafkiana, não poderiam cada uma das estratégias descritas
pelo pintor corresponder a cada uma das três formas benjaminianas de violência (Benjamin,
2018, p. 60)? Em primeiro lugar, a absolvição aparente, cuja consequência é o esporádico
exercício da violência, nada mais é que a violência conservadora, que mantém o poder
instituído a partir de seu permanente exercício. Em segundo lugar, a violência instituinte
manter-se-ia, como poder constituinte, em um permanente não exercício, uma duradoura
potência, tal qual o processo arrastado. Em terceiro lugar, a absolvição real, mito de uma
definitiva absolvição, funcionaria como a violência mítica que dá suporte às duas outras formas
de violência.
No entanto, no que tange a esta terceira correspondência, é preciso que haja mais um
esforço reflexivo. Existem não duas, mas três formas de se interpretar a absolvição real. Em
um nível meramente técnico e especular, a absolvição real é a absolvição normativa garantida
pela lei. A aproximação da absolvição real com a violência mítica se dá, porém, em um outro