© 2025 by RDL | ISSN 2446-8088 | Doi: 10.21119/anamps.11.1.e1301
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ANAMORPHOSIS REVISTA INTERNACIONAL DE DIREITO E LITERATURA
ÓDIO ÀS MULHERES: INCELS E DOGOLACHAN
ODIO A LAS MUJERES: INCELS Y DOGOLACHAN
HATE FOR WOMEN: INCELS AND DOGOLACHAN
ALEX DA ROSA
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AUGUSTO JOBIM DO AMARAL
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RESUMO: A presente pesquisa trata de uma investigação sobre comunidades masculinas digitais, em especial o
fórum Dogolachan, e suas interfaces com a série "Adolescência" (Adolescence, Netflix, 2025). Com plano de fundo
da comunidade dos involuntariamente celibatários (involuntary celibates - INCELS), o texto apresenta uma revisão
bibliográfica no campo das masculinidades acerca das classificações INCELS e busca compreender o processo de
radicalização das masculinidades e a tônica de ódio às mulheres disseminada e multiplicada em ambientes digitais.
Por fim, a pesquisa oferece uma delimitação mais precisa das caracterizações das masculinidades no campo digital
entre INCELS e Redpills e explora suas semelhanças estruturais vindas de um sentimento em comum cuja resposta
é a violência.
PALAVRAS-CHAVE: Adolescência; Dogolachan; INCELS; Masculinidades.
RESUMEN: Esta investigación es una indagación sobre las comunidades digitales masculinas, especialmente el foro
Dogolachan, y sus interfaces con la serie Adolescence (Netflix, 2025). En el contexto de la comunidad de los célibes
involuntarios (INCELS), el texto presenta una revisión bibliográfica en el campo de las masculinidades respecto a
las clasificaciones del INCELS y busca comprender el proceso de radicalización de las masculinidades y el tono de
odio hacia las mujeres difundido y multiplicado en los entornos digitales. Finalmente, la investigación ofrece una
delimitación más precisa de las caracterizaciones de las masculinidades en el ámbito digital entre INCELS y Redpills
y explora sus similitudes estructurales derivadas de un sentimiento común cuya respuesta es la violencia.
PALABRAS CLAVE: Adolescencia; Dogolachan; INCELS; Masculinidades.
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Graduado em direito, filosofia e sociologia. Mestre em direitos humanos pela Universidade do Extremo Sul
Catarinense (UNESC). Doutorando em Filosofia pela Pontíficia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUC-RS). Foi professor e criador do curso pré-vestibular comunitário Navegar, hoje atua como professor na
rede pública e privada. Porto Alegre (RS), Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1797-6053. CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/9538205249595183. Email: alexdarosa@hotmail.com.br.
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Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia
da PUCRS. Doutor em Altos Estudos Contemporâneos pela Universidade de Coimbra (Portugal). Doutor em
Ciências Criminais pela PUCRS. Visiting Research Fellow na Università degli Studi di Padova (Itália) - Coimbra
Group Scholarship (2018-2019) e Visiting Professor na Universidad de Sevilla (España) - Capes PrInt, 2022; e
na Università degli Studi di Salerno (Itália) - Eramus, 2024. Lidera o Grupo de Pesquisa Politicrim”
(DGP/CNPq). Porto Alegre (RS), Brasil. ORCID: orcid.org/0000-0003-0874-0583. CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/4048832153516187. Email: augusto.amaral@pucrs.br.
ANAMORPHOSIS Revista Internacional de Direito e Literatura, v. 11, n. 1, e1301
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ABSTRACT: This research is an investigation into digital male communities, especially the Dogolachan forum, and
its interfaces with the series Adolescence (Netflix, 2025). With the background of the community of involuntary
celibates (INCELS), the text presents a bibliographic review in the field of masculinities regarding INCELS
classifications and seeks to understand the process of radicalization of masculinities and the tone of hatred towards
women disseminated and multiplied in digital environments. Finally, the research offers a more precise delimitation
of the characterizations of masculinities in the digital field between INCELS and Redpills and explores their
structural similarities arising from a common feeling whose response is violence.
KEYWORDS: Adolescence; Dogolachan; INCELS; Masculinities.
1 INTRODUÇÃO
Recentemente a minissérie Adolescência (Netflix, 2025), destacou-se pela temática da
violência contra as mulheres e radicalização das juventudades a partir do ambiente digital.
Tema de extrema pertinência, sintetiza uma questão que, nas últimas décidas, tem se
intensificado especialmente em razão da sua particularidade virtual.
A rie é um drama britânico intenso que gira em torno de Jamie Miller, um garoto de
13 anos acusado de assassinar sua colega Katie Leonard. A trama se desenrola em quatro
episódios e explora não apenas a investigação do crime, mas também as consequências
psicológicas e sociais desse ato em Jamie, sua família e a comunidade.
Reconstituindo o acontecimento com elementos que vão desde uma rejeição romântica
do protagonista até conflitos internos familiares matrimoniais, a série levanta a questão acerca
de Jamie, não propriamente como alguém genuinamente anormal e perigoso, mas quebrando
a unidirecionaldiade e a cristalização de papeis, para ofercer um efeito mais alargado de
problematização social sobre as masculidades que a atravessa.
Ódio às mulheres, longe de ser um tema inédito, entretanto, tem-se visto desde uma
intensificação e agravamento de violências de processos de generificação a partir da estrutura
digital em que as masculinidades também são produzidas. Isso é, canais virtuais passam a
formar uma esfera social na qual os jovens são socializados, espaços de difícil aplicação de
medidas legais, com pouca ou nenhuma moderação, tornando-se prolíficos para disseminação
de cultura de ódio. A partir dessa questão, a presente pesquisa busca abordar o fórum de
discussões brasileiro da deepweb
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Dogolachan, explorando quais seus principais tópicos de
3
A deepweb (ou "web profunda") refere-se a uma parte da internet que não é indexada pelos mecanismos de busca
convencionais, como Google, Bing ou Yahoo, ou seja, não são acessíveis em resultados de buscas comuns e
requerem acesso direto via links específicos e por meio de navegadores específicos como o TOR. Ainda, há uma
categorização especulativa em que a deepweb seria caracterizada especificamente por sua condição de acesso,
enquanto a darkweb seria, dentro da deepweb¸ a parte destinada à conteúdos ilegais e crimes (Finklea, 2017).
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discussão, no campo das masculinidades, e como participam da comunidade os
involuntariamente celibatários (INCELS)
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.
Para tanto, o ensaio oferece uma revisão e levantamento biobliográfico acerca dos tipos
de masculinidades tipificadas como INCEL, entre (a) opressores, (b) oprimidos e (c) ameaças,
mostrando uma divergência dentro do campo de estudo das masculinidades e explorando as
ramificações internas às comunidades masculinistas.
A pesquisa sugere que uma plasticidade envolvendo o conceito INCEL, capaz de
aglutinar outras expressões de masculinidade que ainda que não concordem ou subscrevam da
cosmologia INCEL, contudo que participam desde um elemento fundamental, o principal
objeto comum a todos os grupos e objeto de discussão: o ódio às mulheres.
Essa asserção entretanto não pode ser separada do contexto que a torna tão aguda.
um cenário maior e mais profundo, relativo a um afetos de desesperança, perda de futuro e
agudos rompimento de laços sociais, geralmente trazido a tona pela questão do bullying e
situações de discriminação, que ensejam a violência como alternativa potencializada e
amplificada por um ambiente virtual recursivamente reverbera esta condição.
2 METODOLOGIA
O argumento de Ingold (2008) de que antropologia não é etnografia levanta questões
acerca da atividade etnográfica e intensifica a questão quando transposta à etnografia digital.
Ingold problematiza o tradicional caminho do particular que teorizado leva a generalização,
ambiente que oscila entre o particular/etnografado e universal/antropológico
acerca da antropologia digital, o problema dos polos etnografia/antropologia clássico
ingoldiano passa por uma modificação na medida em que “Com o avanço da plataformização,
realidades digitalmente mediadas passam por uma arquitetura que, do seu próprio ponto de
vista, toma os usuários individuais como ambiente” (Cesarino, 2021, p. 305).
Isso leva a uma divisão na produção etnográfica/antropológica do digital que opera por
ora um privilégio da agência do usuário sobre o sistema cibernético e ora uma exaltação
sufocante do sistema, pela via do algoritmo e plataforma, que torna o usuário sem agência
sobre si mesmo.
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O termo INCEL é uma abreviação de "involuntary celibate" (celibatário involuntário) e descreve
pessoas, geralmente homens, que se identificam como incapazes de encontrar um parceiro romântico
ou sexual. O movimento INCEL surge no final da década de 90 e passou por significativas
modificações, sendo hoje marcado principalmente como um movimento de ódio as mulheres,
misoginia e violência (Beauchamp, 2019).
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O que consiste no ambiente daquilo que pode ser etnografado, em termos de digital,
muita das vezes troca de posição com quem pode ser etnografado justamente na medida em
que os usuários são vistos como todo o ambiente.
Cesarino (2021), baseando em Bateson, reconhece o argumento Ingoldiano (2008) de
que sistemas orgânicos e cibernéticos não são, num primeiro momento, ontologicamente
equivalentes, mas isso não torna a etnografia e/ou a antropologia digital menos relevante ou
importante. Ao contrário, a transdisciplinaridade deve funcionar não como purificadora dos
polos natureza/cultura, mas como integradora de ambos.
Isso é, para Ingold (2008) os sistemas orgânicos seriam autopoiéticos enquanto os
sistemas maquínicos não seriam autopoiéticos, o que delimitaria sua possibilidade ontológica.
Entretanto a superação dessa cisão parte justamente por meio dessa reintegração dos campos
levantada por Cesarino (2021) na medida em que se diminui a cisão entre o espaço digital e
não digital, inclusive evocando a potencialidade ontológica vinda dessa dimensão técnica
Assim a presente etnografia digital, na medida que etnografa os povos modernos,
justifica-se não como um estudo de um suposto outro ambiente, marcado pela cibernética e
pela imaterialidade, separado do ambiente offline; não também a discussão sobre a realidade
e a virtualidade, mas sim, a compreensão que a própria dimensão antropológica do homem
moderno pode ser compreendida a partir justamente dessa integração dos campos
Assim, realizando uma etnografia digital da comunidade brasileira do Dogolachan,
realizou-se uma pesquisa na deepweb, rede de sites acessíveis apenas por navegadores cuja
identificação do IP dos computadores não é rastreável e os sites não encontram-se em nenhum
buscador tradicional, devendo os links para os sites serem encontrados manualmente.
O caminho para o Dogolachan passou por um levantamento de sites de acordo com o
seguinte procedimento: acesso à diretórios de sites, que organizam os links ativos de sites por
temas e áreas - um desses é acessável pelo navegador padrão, o Hidden Wiki , que serviu
como ponto inicial das buscas e fereceu caminho para as demais páginas. A partir disso, todas
as outras foram encontradas manualmente por meio de indicações de conversas entre os
usuários das páginas ou outros sites diretórios na deepweb.
Em geral, os sites indicadas pelos diretórios subdividem-se majoritariamente em sites de
venda de drogas, de armas, de bitcoins, assuntos relacionados a tecnologia, seja contratação
de serviços ou objetos, e os populares “Chans”, abreviação de “channel”, que seriam os canais
de conversa. Na presente investigação, mais de 70 sites foram mapeados, entre ativos e
inativos, sendo desses 8 diretórios e 20 chans, sendo que destes últimos apenas 8 estavam
ativos e apenas dois eram em língua portuguesa, um voltado a comunidade de portugal, o
PTChan, e outro voltado a comunidade brasileira, o DogolaChan, escolhido como objeto de
pesquisa
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Os Chans compartilham de uma estrutura estética e funcional muito semelhante. Alguns
pedem um teste de Captcha antes de acessá-lo, outros pedem um registro, mas a grande
maioria é de acesso livre. No site, uma barra horizontal no topo da página ou uma vertical
na lateral da página indicando os tópicos de discussão, chamados de boards. Dentro de um
board, cada usuário pode criar um tópico de discussão dentro do respectivo board, que vai ser
respondido pelos outros usuários dentro do próprio tópico de discussão, num sistema de “fio”,
em que as respostas são à comentários dentro do tópico de discussão ou em resposta ao próprio
tópico proposto.
Os boards são de criação exclusiva dos moderadores do site e não podem ser criados
pelos usuários, os tópicos de discussão por sua vez são de livre criação por parte dos usuários.
A comunidade é bastante severa quanto à exigência de pertinência temática dos tópicos de
discussão em relação ao board em questão.
A pesquisa aqui exposta foi realizada em maio de 2024, com o mapeamento de 6 boards,
cada um com correspondentes tópicos de discussãos, e cada um com diversos comentários não
listados quantitativamente. Intitulados segundo o próprio site, estes foram os 6 tópicos
encontrados: 1 - Random; 2 -Nihiilismo, Existencialismo, Vazio, Falta de Sentido, Desespero
existencial; 3 - Balcão de Reclamações e Sugestões; 4 - Futebol, Fórmula 1, Basquetebol,
Ciclismo, Bilhar às 3 Tabelas etc.; 5 - RPG e 6 Internacional.
Figura 1. Visão geral de toópicos no board “Random” do canal Dogolachan, março 2025
Na imagem verifica-se na barra horizontal no topo da página, da esquerda até o entro,
lista de boards de discussão. Do centro até a direta, tópicos de informações sobre a página.
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Abaixo a lista de tópicos de discussão no formato retangular contendo uma imagem e a
provocação feita pelo tópico.
Como observa-se na imagem acima, os boards são modificados eventualmente pelos
moderadores das páginas, mas a dinâmica permanece a mesma. Cada um dos retângulos acima
indica um tópico de discussão criado por usuários, cujas respostas são indivadas pelo ‘’r’’ na
parte de baixo do retângulo, mostrando o número de interações dentro de determinado tópico.
3 INVOLUNTARIAMENTE CELIBATÁRIOS
Com visibilidade nos últimos anos, fóruns de discussão na deepweb ganharam evidência
ao serem associados ao fomento de massacres escolares e atentados que visavam as mulheres
como vítimas (Altino e Caetano, 2023). De modo geral, passou a circular com mais intensidade
alguma noção acerca dos involuntariamente celibatários (INCELS) e uma suposta
responsabilidade sobre os atentados, assim como o papel dos fóruns de discussão nos
acontecimentos.
Os INCELS, por sua vez, podem ser descritos como uma comunidade virtual agrupada
principalmente em fóruns de discussões cuja história remonta ao final da década de noventa,
a partir da página Alana’s Involuntary Celibacy Project, em que a autora Alana buscou criar
um espaço para compartilhar angústias e sensações acerca das dificuldades de encontrar um
par romântico e a posição que disso desenrolava, como um celibato não opcional, ou nas
palavras dos mesmos, involuntário (Beauchamp, 2019). Entretanto, o espaço originalmente
criado como um espaço para partilha de angústias e compartilhamento de ideias, rapidamente
tomou outros rumos após o afastamento da criadora do site e se transformou em um
movimento de ódio às mulheres.
Estudados a partir do conceito de “machosfera/manosfera”, sobre os INCELS
significativos estudos que permitem uma rigorosa aproximação da comunidade. O ambiente
da machosfera, ou espaço digital masculino, não trata de um espaço homogêneo, havendo
diferenças entre os grupos que o habitam - como é o caso dos sedutores, os redpill e os
blackpill
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(Ribeiro et al, 2020). A maior parte dos estudos encontrados acerca da machosfera,
principalmente dos INCEIS, são estudos realizados a partir da superfície da web, com
comunidades majoritariamente de língua inglesa, em sites como incels.co ou reddit.com, sites
de acesso aberto cujo conteúdo possui moderação e está sujeito a disposições de legais.
5
Os conceitos de redpill e blackpill são termos comuns em comunidades online que discutem relacionamentos,
papéis de gênero e dinâmicas sociais e derivam da metáfora da pílula vermelha e azul do filme Matrix (1999),
onde tomar a "pílula vermelha" permite enxergar a "verdade" oculta sobre o mundo. Para eles, essa verdade seria
o despertar para uma suposta verdade sobre as dinâmicas de gênero e relacionamentos em que a sociedade atual
privilegiaria as mulheres em detrimento dos homens, aspecto que chamam de hipergamia feminina. Nesse
sentido, os blackpills seriam uma radicalização dos redpills no que tange ao ódio as mulheres (Lin, 2017)
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Czerwinsky (2024), num longo e sistemático trabalho de investigação acerca da produção
de textos sobre os INCELS, analisando quase 100 textos de língua inglesa, encontrou
majoritaritariamente estudos nas áreas de gênero, mas com outras abordagens como ciência
da computação, linguística, criminologia, sociologia, e estudos de terrorismo tópicos
corroborados pela pesquisa do autor. Em geral, são pesquisas qualitativas baseadas na
mensuração, coleta e análise de comentários dentro de comunidades específicas dos grupos.
Nesse contexto, os INCELS são estudados por pesquisadores/as dentro do campo
chamado de “machosfera/manosfera”, que seria o campo de estudos digitais que abriga
diversas comunidades de pautas masculinistas e/ou no campo da misoginia nas formas
digitais. Assim, ainda que os INCELS constituam certo grupo privilegiado de análise, os
estudos ainda figuram nesse ambiente junto a outros grupos e estudos sobre os blackpill, os
redpill e man got their own way
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, entre outros - comunidades digitais que vão compor a
machosfera e a misoginia em ambiente digital (Ribeiro et al, 2020; Lin 2017; Nagle 2015;
Czerwinsky, 2024; Van Valkenburg 2018; Ruffo, 2024, Silva, 2024)
Destaca-se o notável trabalho de Nagle (2015), que em grande medida baseia-se este
artigo, que foge da maior parte das pesquisas realizadas em ambientes de acesso livre, na
superfície da web, através de grupos e comunidades consolidadas que se autoconsideravam
adeptas a categoria escolhida. Por essa razão, ainda que este ensaio participe de conclusões
pesquisadas por outros, apresenta também algumas conclusões divergências oriundas da
diferença entre a comunidade da superfície da web e da deepweb.
Sobre essa última, cumpre destacar que uma significativa produção de material
científico, tanto qualitativo quanto quantitativo, intensificado nos últimos 15 anos, que procura
mensurar o tamanho da deepweb, seus principais sites e tipos de dinâmicas, principalmente
destacando aspectos relativos à segurança e à criminalidade (Raman et al 2023; Geourgoulias
et al 2023; Orsolini et al 2017; Finklea, 2017).
Retornando ao ponto central, em literatura internacional, destacam-se os trabalhos
recentes de Halpin (2022), Tranchese e Sugiura (2021), Preston, Halpin e Maguire (2021),
Ging (2019), Lee (2019), Banet-Weiser e Miltner (2015) e Jane (2016) como importantes na
compreensão da difusão da misoginia pelas redes virtuais e sua eventual cristalização nos
grupos INCELS. Enquanto os 4 primeiros discutem especificamente a comunidade INCEL, os
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“os MGTOW, costumam apresentar um discurso extremista e compactuam com ideias recorrentes na manosfera
de que vivemos em uma sociedade misândrica e ginocêntrica. Um dos princípios norteadores do MGTOW é
rejeitar o casamento, o amor romântico e o cavalheirismo pois, para eles, estes se tratam de “costumes
ginocêntricos” que acabam por levar à servidão masculina. Esse grupo usa um símbolo próprio que se assemelha
a uma placa de trânsito, onde há uma seta saindo de um traço central, o que para eles representaria o abandono
ao casamento e à sociedade em geral” (Silva, 2022, p. 28)
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demais discutem aspectos da misoginia na web, seja no tinder (Lee, 2019) ou em redes sociais
(Banet-Weiser; Miltner, 2015).
Dos trabalhos que discutem a comunidade INCEL diretamente, aquele que apresenta
uma análise não exclusiva de algum subtópico do reddit é o trabalho de Ging (2019) que
trabalha por meio de referências cruzadas (palavras-chave temáticas), ainda que no fim
reconheça uma predominância do reddit como espaço de discussão e agrupamento
privilegiado dos INCELS. Desse grupo, como dito, o esforço que se destaca por abordar a
questão a partir da deepweb são os trabalhos de Nagle (2015;2016; 2017).
Acerca da literatura sobre o tema, Czerwinsky (2024) oferece uma interessante
perspectiva acerca da classificação dos trabalhos destinados ao tema. Para a autora, os
trabalhos sobre a comunidade INCEL costumam se dividir em três categorias: a primeira
classifica os INCELS como opressores, a segunda percebe os INCELS como oprimidos e a
terceira percebe os INCELS como uma ameaça. O principal problema, segunda a autora, é que
a classificação atual utilizada para os INCELS deixa incerta suas características, assim como
fomenta uma espécie de generalização que implica em imprecisões teóricas:
(...) o foco em incels como apenas homens misóginos impede espaços mais
periféricos que discutem questões de celibato involuntário de participar de
nossas análises, criando uma representação errônea da incelsfera mais ampla
e mascarando a experiência e influências daqueles que podem se identificar
como celibatários involuntários, mas que podem não adotar as cosmovisões
amarradas a incels misóginos.(...) uma necessidade para acadêmicos e
profissionais adotarem uma linguagem que distinga partes específicas da
comunidade INCEL e suas ideologias especificamente aquelas que estão
ligadas à misoginia e à supremacia masculina da identificação pessoal de ser
celibatário involuntário. Termos como INCEL-misoginista(s), INCEL-não
violento(s) e INCEL-autoidentificado(s) são importantes para ajudar a criar
nuances dentro da nossa compreensão da comunidade incel mais ampla (...)
(Czerwinsky, 2024, p. 208 tradução livre).
Essa classificação sugerida aos trabalhos compreende bem parte de como os próprios
INCELS veem a si próprios, perspectivas que aparecem na pluralidade de discursos e ajudam
a compreender o tom não monolítico do movimento. Acerca da primeira classificação,
trabalhos que exploram a comunidade INCEL a partir da dimensão sexista e misógina exposta
por eles, (a) INCELS como opressores, principalmente no que versa sobre a sua cosmovisão
sobre os papeis de gênero e da proposta teórica formulada por eles sobre uma sociedade
hipergâmica.
Trabalhos como Lindsay (2021), Valkenburgh (2018) e Jane (2016) destacam a visão
INCEL de que a distribuição de parceiros sexuais estaria em desequilíbrio. As razões desses
desequilíbrios, segundo eles, podem ser duas: a natureza feminina e/ou consequência do
feminismo e do empoderamento feminino. Na visão INCEL, as mulheres buscam pelo chad
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(homens dominantes
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) que são poucos, seja porque naturalmente são assim, pelos atributos
físicos ou porque conquistaram essa posição socialmente. Na visão INCEL, poucos homens
teriam múltiplas mulheres a sua disposição enquanto muitos homens disporiam de uma
pequena parcela de mulheres interessadas neles. O interessante estudo de Gothard et. al.
(2021, p. 9 tradução livre) investiga quantitativamente e mensura as proposições INCELS:
Outros populares temas incels estão representados nesta lista de bigramas e
trigramas, como o princípio de Pareto, ou “Regra 80/20”. Os incels costumam
afirmar que homens e mulheres são classificados por atratividade, o 80% das
mulheres procuram relacionamentos com 20% dos homens, deixando os 80%
mais desfavorecidos dos homens procuram relacionamentos com os 20% de
mulheres mais desfavorecidas. Este princípio é muitas vezes referido como a
base porque os incels não conseguem criar relacionamentos com sucesso e
está enraizado na suposição de que as mulheres são hipergâmicas, ou que
apenas procuram relacionamentos com homens que o mais atraentes do que
eles.
Entretanto o que estruturaria essa distribuição desigual entre os pares costuma oscilar
entre dimensões biológicas e culturais, com predominância do primeiro argumento sobre o
segundo. Essa ideia fundamenta boa parte da visão desse grupo INCEL, agrupando também
sob essa caracterização grupos redpill e blackpill, sendo a descoberta autorreferenciada por
esses grupos tomar a pílula - justamente o reconhecimento da suposta estrutura de
distribuição de pares na sociedade.
outro grupo de estudos parte da perspectiva, não necessariamente paradigmática, mas
influente, dos (b) INCELS como vítimas. Esse grupo destaca principalmente o que os teóricos
da masculinidade chamaram de "masculinidades híbridas" (Ging, 2019; Nagle, 2015; Halpin
et al 2021; Bridges e Pascoe 2014), ou seja, uma certa variação da performatividade de gênero
por parte dos homens INCELS a partir das suas relações com homens dominantes, os chads.
A ideia de vítima parte da noção de inferioridade que os INCELS atribuem a si perante os
homens dominantes. Nesse sentido, a discussão -se a partir da distância entre a performance
de masculinidade hegemônica e a performance realizada pelos INCELS. Enquanto os chads
seriam os alfas, eles seriam os betas. A ideia de masculinidades híbridas seria a utilização ora
de aspectos hegemônicos ora de aspectos não hegemônicos da performance masculina para
benefício próprio.
Halpin (2022, p. 831 tradução livre) utiliza o conceito de “Weaponized Subordination”
(subordinação como arma, subordinação como ferramenta ou subordinação estratégica),
7
Para algumas comunidades digitais, especialmente os INCELS, "chad" refere-se a um arquétipo masculino
idealizado como um homem atraente, fisicamente dominante, socialmente confiante e sexualmente bem-
sucedido. O chad possuiria tais atributos a partir de sua condição biológica, determinando a quantidade
disponíveis de parceiras sexuais para eles, que disporiam de múltiplas parceiras enquanto os demais ficariam
sem. Essa mesma ideia aparece com a nomenclatura de ALFA. Tal como o primeiro, um homem dominante
sexualmente bem-sucedido, que equivale ao chad, enquanto os demais seriam BETAS, não dominantes.
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argumentando que os INCELS inferiorizam-se perante as masculinidades dominantes, mas
sem renunciar à posição hegemônica em relação à estruturação de gênero patriarcal da
sociedade:
A masculinidade híbrida dos incels envolve “pegando emprestado de cima”,
pois se definem como subordinados, “homens fracassados”, ao mesmo tempo
em que adotam uma orientação hegemônica para a subjugação das mulheres.
Isto é, os homens favorecidos “pegam emprestado de baixo” para disfarçar a
suas práticas hegemônicas e os incels “pegam emprestado de cima” para
misturar sua subordinação com misoginia agressiva e violência. Subordinação
como arma é uma prática distintamente híbrida: os Incels se situam como
“lixos genéticos”, exaltam os chads que os atacam e realizam práticas
misóginas que eles imaginam que chads podem desfrutar.
A discussão acerca da performance de masculinidades hibridas dentro do contexto da
manosfera não deixa de envolver argumentos como o de Ging (2019) que acabam por reforçar
a performance INCEL, desde a maneira como estes percebem e consideram a si mesmos, como
vítimas do feminismo. Assim, as características masculinas performadas seriam, segundo este
exdrúxulo aporte neoconservador, uma resposta necessária e inevitável às demandas do
feminismo contemporâneo.
Bridges e Pascoe (2014) argumentam acerca da hibridez masculina como o processo em
que a performance de masculinidade passou a incorporar elementos não tipicamente
masculinos, mas associados a cultura gay entre outras performances não hegemônicas, como
uma certa estratégia de distanciamento das performances hegemônicas. Nessa esteira, Halpin
(2022) sugere que esse distanciamento é estratégico no sentido de ser usado como ferramenta.
Para Halpin (2022), os INCELS reconhecem a sua subordinação em relação aos chads e
utilizam dessa posição para legitimar as práticas hegemônicas. Em outras palavras, é como se
usassem do reconhecimento de uma hierarquia como forma de intensificação da mesma,
reforçando que na distribuição das posições, ainda que os chads sejam superiores a eles, as
mulheres ocupam uma posição ainda abaixo.
Por fim, o terceiro grupo de estudos caracteriza os INCELS (c) como uma ameaça,
relacionando-os principalmente à violência no ambiente digital e aos massacres escolares. Esse
grupo de estudos aproxima-se da interpretação dos INCELS como um risco à segurança
pública e busca rastrear e classificar largamente acontecimentos dentro do marco INCEL.
Autores como DeCook e Kelly (2022), Blake et. al. (2020) e Scaptura e Boyle (2020)
representam esse conjunto de análises que focam numa ampla interpretação do que poderia
remeter ao INCEL, agrupando diversas características masculinistas, misóginas e violentas
como seus traços, inclusive sugerindo sinais INCELS antes do próprio surgimento do site que
intitulou o movimento. Essa literatura apoia-se principalmente nos massacres em que os
autores se identificam como INCELS e expõem suas motivações - como num dos mais
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emblemáticos casos, de Eliot Roger
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(2014, p. 1), que em seu manifesto descreve suas
motivações para o massacre:
Humanidade... Todo o meu sofrimento neste mundo foi nas mãos da
humanidade, particularmente das mulheres. Isso me fez perceber a quão
brutal e distorcida a humanidade é como espécie. Tudo o que eu sempre quis
foi me encaixar e viver uma vida feliz entre a humanidade, mas fui expulso e
rejeitado, forçado a suportar uma existência de solidão e insignificância, tudo
porque as fêmeas da espécie humana eram incapazes de ver o valor em mim.
Esta é a história de como eu, Elliot Rodger, vim a ser. Esta é a história de toda
a minha vida. É uma história sombria de tristeza, raiva e ódio. É uma história
de uma guerra contra a injustiça cruel. Nesta história magnífica, vou revelar
cada detalhe sobre minha vida, cada experiência significativa que tirei da
minha memória superior, bem como como essas experiências moldaram
minhas visões do mundo. Esta tragédia não precisava acontecer. Eu não
queria que as coisas acontecessem dessa forma, mas a humanidade forçou
minha mão, e esta história explicará o porquê. Minha vida não começou
sombria e distorcida. Comecei como uma criança feliz e abençoada, vivendo
minha vida ao máximo em um mundo que eu achava bom e puro (tradução
livre).
A questão de gênero parece ser sem dúvida decisiva e inescapável aos INCELS, o ódio às
mulheres é o elemento central. Assim pode-se perceber o quanto o próprio movimento INCEL
participa de um cenário maior e profundo, como sugerido por Bifo (2015). Além dos
hikikomori
9
, o autor italiano destaca as diversas facetas do colapso social e afetivo da
contemporaneidade e o sofrimento próprio desse tempo, como o suicídio de militares nos EUA
que supera as baixas em guerra e os próprios massacres em escolas - episódios esses que
surgem como efeito de situação de sofrimento mental.
Utilizando como base a própria descrição de Roger (2014), enfatiza-se um aspecto crítico
do discurso em relação ao adoecimento psíquico, o isolamento social, o sentimento de
injustiça, um profundo niilismo organizado pelo universo existencial desses sujeitos, espaço
em que a suposta assimetria da disponibilidade de mulheres hipótese hipergâmica seria o
pontapé ou o ponto final dessa compreensão cosmológica.
Longe de qualquer exculpação ética produzida por qualquer tipo de justificação que
poderia ser lida desde aí, o que parece necessário frisar é o quanto a questão de gênero e a
misoginia que o carrega é um sintoma social difuso e compartilhado, fundamental para as
formas de subjetivação que informam nossas relações sociais, em que o fenômeno INCEL é
8
Elliot Rodger foi o autor de um ataque em Isla Vista, Califórnia, em 23 de maio de 2014, que ficou conhecido
como o "Massacre de Isla Vista". Ele matou seis pessoas e feriu outras 14 antes de tirar a própria vida (BBC,
2018).
9
Hikikomori é um termo japonês que significa "isolado" ou "recluso". Ele é usado para descrever um fenômeno
social em que indivíduos, geralmente jovens, optam por um isolamento extremo, evitando contato social e
permanecendo confinados em suas casas, muitas vezes em seus próprios quartos, por longos períodos, que
podem durar meses ou até anos (BIFO, 2015).
ANAMORPHOSIS Revista Internacional de Direito e Literatura, v. 11, n. 1, e1301
12
uma espécie de territorialização de uma condição contemporâne atinente à forma como viemos
constitindo nossos processos de individualização na modernidade (BUTLER, 2024).
4 DOGOLACHAN: INCELS E BLACK PILLS
O Dogolachan ganhou notoriedade por seu conteúdo violento e ilegal, surgindo como
uma espécie de sucessor do extinto Dogolachan.org, que por sua vez era uma ramificação do
4chan, um famoso fórum da internet conhecido por seus conteúdos dentre outros temas
vinculados a crimes e violência. Originalmente dedicado às discussões sobre jogos e cultura
nerd, rapidamente tornou-se um espaço para a disseminação de ódio, intolerância, pornografia
ilegal, especialmente infantil, e principalmente orientado ao estímulo de linchamentos virtuais
e massacres escolares. O rum era conhecido por abrigar membros extremistas de direita e
promover discursos de ódio contra minorias, mulheres e grupos religiosos, até que seu
fundador foi preso em 2018 pelos crimes de pedofilia, ameaça e racismo dando fim ao
registro oficial do canal.
A escalada de fama do canal teve ponto privilegiado após o massacre de realengo (2011)
10
,
entusiasticamente comemorado pelos usuários, exaltando positivamente o acontecido.
Juntamente ao massacre de Suzano (2019)
11
, cujos autores nos anos anteriores tinham ali
exposto seus planos e motivações. A retomada do site em 2024 mobilizou usuários de outros
chans, em razão de sua história e pela procura por um grande rum brasileiro consolidado
desde a ausência do próprio Dogolachan.org. Assim, talvez por sua recém volta, são poucos os
tópicos de discussão disponíveis no site. No segundo semestre de 2024, o site novamente ficou
fora do ar, até retornar em fevereiro de 2025.
A pesquisa aqui exposta foi realizada em maio de 2024, desde o mapeamento de 6
boards, cada um com correspondentes tópicos de discussãos, e cada um com diversos
comentários não listados quantitativamente. Intitulados segundo o próprio site, estes foram os
6 tópicos encontrados: 1 - Random; 2 -Nihiilismo, Existencialismo, Vazio, Falta de Sentido,
Desespero existencial; 3 - Balcão de Reclamações e Sugestões; 4 - Futebol, Fórmula 1,
Basquetebol, Ciclismo, Bilhar às 3 Tabelas etc.; 5 - RPG e 6 Internacional.
10
O massacre de Realengo foi um trágico ataque ocorrido em 7 de abril de 2011, na Escola Municipal Tasso da
Silveira, no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, Brasil. Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a
escola armado e abriu fogo contra alunos em salas de aula. Ele matou 12 crianças, com idades entre 12 e 14 anos,
e feriu outras 12 antes de tirar a própria vida ao ser confrontado pela polícia (Bernardo, 2021).
11
O massacre de Suzano foi um ataque realizado em 13 de março de 2019 na Escola Estadual Raul Brasil, em
Suzano, São Paulo. Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, ex-alunos da
instituição, invadiram a escola armados, matando cinco estudantes e dois funcionários. Antes do ataque,
Guilherme assassinou seu tio em uma loja próxima. Após o atentado, Luiz matou o cúmplice e tirou a própria
vida (Sudré, 2020).
ROSA; AMARAL | Ódio as mulheres...
13
O conteúdo é extremamente violento e explícito, evidenciando uma diferença
significativa em relação às comunidades europeias e americanas. Do board 1 Random, o maior
e mais ativo, destaco alguns dos tópicos de discussão, como um dedicado a criticar os
“paneleiros” a partir da notícia da prisão de um jovem brasileiro (07/05/2024) por incitar nos
chans e discord ameaças a deputadas e vereadoras em 2023. É uma posição que,
paradoxalmente em parte, não condena as ações, mas o caminho para tal as panelas e, ao
mesmo tempo, chama a atenção da polícia para a deepweb.
Dois outros tópicos dentro do board defendem o direito à pedofilia, argumentando que
apenas nesse estado infantil as mulheres não estariam ainda corrompidas e preservariam seus
valores puros, usando para tal nomenclaturas como “loli” ou “fofinhas”, mas sem prejuízo a
referências diretas de defesa da pedofilia. Num sentido parecido, outro tópico é dedicado a
fotos de garotas estudantes e crianças em uniformes escolares ainda que sem rosto e sem
nudez.
O argumento central deles é que as mulheres ao adentrarem na puberdade passariam a
ser corrompidas pelos valores da sociedade contemporânea, pelo "marxismo cultural", termo
que aparece com frequência, o que as excluiria da posição de parceira possível. Na verdade,
para eles, não mulher possível, apenas crianças. Todas as mulheres são marcadas por uma
corrupção vinculada à liberdade sexual. Ainda aqueles que possuem parceira, as odeiam e
descrevem sua relação exclusivamente numa dimensão de função social e necessidade
biológica do sexo, daí o termo popular entre eles para se referir às mulheres como “depósito de
porra”. Nesse sentido, a pedofilia surge como uma espécie de consequência inevitável, pois,
quanto mais cedo tiverem acesso as crianças, mais terão experiências sexuais puras com
mulheres nesta condição, argumento defendido explicitamente de modo categórica.
Por fim, no board 2 Nihilismo e vazio existencial, destaco três tópicos, um de um
usuário que diz ser nordestino e odiar o povo nordestino. Seguindo a argumentação
semelhante ao tópico anterior, defende e exalta casos de massacres, homicídios, estupros,
tendo como referência o cangaceiro Lampião. No caso do ódio ao povo nordestino, o usuário
foi severamente criticado por outros usuários, os acusando de estar querendo chamar atenção
ao que dão o nome de “Jorge” e de ser provavelmente pardo. Outro tópico relevante a se
destacar é composto por uma discussão que parte de duas imagens em forma de meme: por
um lado, uma mão segurando uma pílula preta em referência a blackpill e, por outro, uma
imagem de um homem chad dizendo que sexo não é tudo na vida, seguido do seguinte texto
com algumas respostas:
-> [Texto inicial] Os mesmos idiotas que dizem isso fazem sexo 24 horas por
dia, 7 dias por semana. Tente viver com isso, passando toda a sua vida sozinha,
sem nunca experimentar o toque caloroso de uma bela mulher, sem saber
como é realmente ser íntimo, beijar uma mulher e sentir seus lábios macios.
ANAMORPHOSIS Revista Internacional de Direito e Literatura, v. 11, n. 1, e1301
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Sendo considerado por todos como nada mais do que uma aberração por causa
da sua aparência e deficiência.
Perdendo os melhores anos da sua vida porque ninguém quer estar com você.
Sua única alegria é jogar videogame, comer e se masturbar. Indo para a cama
todas as noites, temendo o dia seguinte e desejando não ter que acordar.
A maioria dos homens na Terra vai envelhecer e desejar companhia. Embora
alguns possam conseguir funcionar sem ela, isso não é verdade para a maioria.
Quando você está sozinho, a vida pode ser bastante terrível. Os seres humanos
são seres sociais, portanto, o que as outras pessoas pensam é importante. Não
é tão simples quanto "encontre outras coisas que te façam feliz.
Não suporto essa declaração ridícula. [sexo não é tudo na vida]
-> [Resposta] Primeiramente, não é verdade. Tudo o que todo mundo faz na
vida é para conseguir sexo futuro. Em segundo lugar, sou um macho alfa com
testosterona e um pênis que precisa ser usado. É minha missão biológica. Não
suporto quando merdalheres assexuadas dizem para eu apenas ser feliz e não
me preocupar tanto. Tenho vontade de estrangulá-las.
->[Resposta] Então eu continuo correto. O problema não é sexo, é amor.
Agora aqui vai a verdadeira blackpill, mulher não é capaz de amar homem. O
amor de uma mulher está reservado apenas para ela mesma e sua prole (às
vezes nem isso). O "amor" de uma mulher para com um homem é 100%
transacional e depende do que o homem pode prover para ela. O máximo de
sentimento que elas possuem é o de paixão, desejo por alguém que as domine,
nada mais, nada próximo do que seria um sentimento de amor. Somente
homens são capazes de amar verdadeiramente. Um amor que não pede nada
de volta, um amor sacrificial. O maior erro é achar que as depósitos de porra
são capazes de corresponder com o mesmo sentimento, não são. O erro é achar
que elas são iguais a nós, não são. Pode ser difícil de aceitar essa verdade
considerando a constante lavagem cerebral a respeito do mito da igualdade,
porém, o curioso é que nem sempre foi assim. Uma leitura atenta dos filósofos
do passado revela que esse conhecimento era senso comum. A falta de uma
formação clássica, da leitura dos textos originais, traz grande dano para a
sociedade atual, em especial aos homens. É incrivelmente estúpido aceitar o
que foi ensinado pela escola como verdade.
(3 de junho de 2024, usuários anônimos, discussão ocorrida da tábula “/b/”
do dogolachan).
A discussão traz à tona diversos aspectos da comunidade. Em primeiro lugar, parte-se de
um ambiente de tristeza e rejeição, seguido de uma autoafirmação positiva a partir de um
mundo estruturado contrariamente a eles. O termo "depósito de porra", ao ser expressao
máxima de objetificação e despersonalização da mulher, ativa o esquema interpretativo
INCEL, sua cosmologia, baseada principalmente no caráter fixo e natural das supostas
diferenças biológicas entre os gêneros.
Portanto, percebem-se os diferentes caminhos atrelados reiteradamente aos chamados
INCELS, ou seja, a tomada do caminho da violência como resposta a diferença biológica
refletida socialmente nas posições entre homens e mulheres, no sentido de promover uma
aniquilação deste mundo frente uma situação que não tem mais saída. Não sem algum dose de
cinismo, acaba por englobar seu imediato oposto, afirmando justamente a natureza masculina
pelo direito de dominação dos homens sobre as mulheres, resguardando-as justamente a
posição passiva de depósito e utilizando da violência para garantir a dominação natural sobre
o cultural que deve ser do homem sobre a mulher.
ROSA; AMARAL | Ódio as mulheres...
15
Entretanto, com o passar do tempo, em que pese sua propagação inédita inédita, ao que
parece, uma narrativa praticamente hegemônica que se pretende justificada biologicamente
e distribuída socialmente. Nessa visão, a mulher seria naturalmente hipergâmica, adepta a
diversos parceiros, sendo uns predeterminados biologicamente, pois nasceriam belos
enquanto outros, nascidos feitos, estariam condenados a não possuírem parceiras. Trata-se de
uma visão, para dizer o menos, que desimplica o indivíduo e culpabiliza as mulheres por sua
sofrida rejeição. Além disso, nessa inversão, buscam afirmação conceituando politicamente o
termo de forma positiva: INCELS são aqueles que não sucumbem à estrutura de distribuição
sexual da sociedade, distribuída entre mulheres e os homens geneticamente privilegiados.
Nisso reside, a rigor, por outro lado, a complexidade do termo e a impossibilidade de
dotá-lo de uniformidade. Para uma enorme parcela da população poderiam os incels serem
vistos fracassados porque não conseguem nem se relacionar com mulheres nem buscarem
melhorar a si mesmos para que consigam seus objetivos. Esse ponto limítrofe é, ao mesmo
tempo, a linha que, com frequência, conecta/separa os incels ao movimento redpill ou
blackpill. Nesses movimentos, uma compreensão comum aos INCELS de que um sistema
de organização social que privilegia as mulheres, mas para estes isso não é fruto de um arranjo
biológico, mas sim de uma construção cultural contemporânea, a agenda progressista woke
12
.
Para os redpill (não sem razão tão frequentes no mundo fitness e musculação), ainda que a
sociedade privilegie as mulheres, você deve buscar corresponder ao homem ideal macho alfa
etc. para assim conseguir sua parceira.
Para os incels, a estrutura social é dada biologicamente, para os redpills é culturalmente.
Para os incels, o que predomina é o niilismo, a perda de sentido, visto que estão condenados a
sua posição social em virtude da ordem biológica que os predeterminada. Para os redpills,
predomina um movimento antissistema que busca restabelecer as dinâmicas dos tradicionais
papeis de gênero do homem provedor e mulher cuidadora. De certa forma, é como se
imaginassem uma sociedade tal qual a referida no conto de aia (Fagundes et al, 2023).
Ainda nas diferenças, a maneira que pela qual ambos veem o mundo e a intervenção nele
é diferente. Os INCELS afirmam-se positivamente como vítimas da ordem social,
estabelecendo um orgulho INCEL. Noutros termos, a produção de um modo de aceitação
necessário para assimilar certas frustrações internas, mas como não como resolver
12
"Woke" participa da ideia de despertar e é um termo vinculado a comportamentos ou discursos que descrevem
qualquer postura progressista relacionada a questões de igualdade, como feminismo, direitos LGBTQIA+,
antirracismo e ambientalismo. Para os conservadores, pautas progressistas estão sendo difundidas na cultura
como forma de estabelecimento de dominação ideológica e servem como ferramenta de silenciamento as pautas
conservadoras (BBC, 2024). A “agenda woke” seria hegemônica, inclusive por parte do capitalismo, que estaria
colocando em xeque os valores conservadores e que por fim faz com que certos grupos conservadores se vejam
em posições antiestruturais em relação ao que consideram hegemônico, em termos culturais, ainda que alinhados ao
capitalismo.
ANAMORPHOSIS Revista Internacional de Direito e Literatura, v. 11, n. 1, e1301
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completamente esta condição de frustração pela impossibilidade de mudança estrutural
biológica - devido ao orgulho de ainda assim fazer parte do grupo -, assumem uma posição
absolutamente destrutiva com relação aos outros.
Aqui aparecem reiteramente as referências a um mundo condenado, decadente, às
pessoas impuras, enquanto apenas eles aparecem como santos justamente pela virgindade
, assumindo a posição messiânica de redimir o mundo e salvá-lo de seu estado atual, momento
em que surgem os massacres escolares. Reforçando a dimensão de condenação do mundo,
noutro tópico ainda dentro do board 2, um usuário promete realizar um massacre, ou “actvms
sanctvms” ato santo -, seguido de fotos de uma pistola e o seguinte texto:
Acabei de comprar o meu ingresso para o evento NEGRARTE, que vai ocorrer
agora dia 17 de maio em Diáspora ali na Av. Rebouças. Este é o evento perfeito,
lotado de macacos, lésbicas e homossexuais em que vou chamar atenção para
a comunidade incel. Eu estou cansado e fodido nessa vida e o mundo parece
caminhar cada vez mais para a degeneração. Talvez se alguma mulher
descente ou empresa tivesse me dado oportunidade eu não precisaria fazer
o que irei fazer. Levarei comigo a vossa mensagem. As minhas ferramentas da
purificação estão prontas para uso. Esses pretos irão desejar nunca terem
nascido. O dia da retribuição chegou (destaque nosso).
(2 de maio de 2024, usuário anônimo, discussão ocorrida na tábula
“”/Random/” do Dogolachan).
Os massacres escolares acabam por representar um os possíveis efeitos de uma visão que
os INCELS tem sobre si mesmos, o papel social que ocupam, um duplo de tima-agente no
qual ao assumir um papel de orgulho sobre si evitando uma visão fracassada de si mesmo -
precisa ser justificado como vetor de purificação do mundo.
os redpill, por sua vez, pouco distintamnte, aderem mais facilmente às teorias
conspiratórias atribuídas à agenda woke, responsável por desfazer os papeis tradicionais de
gênero que eles agora tentam resgar, justamente numa afirmação exacerbada de
masculinidade (exigência de hiperfeminilidade entre outros), motivações divergentes daquelas
dos incels. Enfim, não é possível afirmar uma unidade de movimento ou até mesmo coerência
interna entre seus princípios.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A série Adolescência (Netflix, 2025) explora a importância da compreensão dos
processos de formação e identificações sociais. Incitam no espectador, em especial a partir do
plano contínuo de filmagem que busca uma adesão, intimidade e imersão no contexto da
história, questões sobre e se: e se o protagonista não tivesse se envolvido com fóruns digitais
sua conduta seria diversa? Ou: como num ambiente familiar aparentemente controlado pode
se desenvolver um processo de individuação tão estranho à dinâmica familiar? E se a escola
tivesse controlado melhor a antecipado situações conflitantes entre os alunos? E se...
ROSA; AMARAL | Ódio as mulheres...
17
O que, em realidade, conduz a série é para a complexidade e a fuga das fórmulas fáceis
que associam papeis estantes de culpados e vítimas. Ademais, pulverizam estas posições
binárias ao mesmo tempo que responsabilizam de modo concreto os modos que viemos
construindo nossas relações de poder, através das estratégias econômicas, sexuais,
educacionais, afetivas etc. que não deixarão pensar tais fenômenos como acidentais. O
ambiente digital é mais uma dimensão da realidade misógina que produzimos nossa civilização
e modo privilegiado sobre como também temos modulado nossas corporeidades. Espaços de
eco que, em sua recursividade, ressoam e canalizam violências de emergências múltiplas.
O caso dos incels é mais um ponto necessário de análise e atenção. Se eles se enxergam
como prejudicados, vulnerabilizados, perseguidos e injustiçados pelo mundo, uma pergunta
fundamental a ser respondida passa a ser: porque então, diante de um sentimento vivenciado
de modo tão difuso e intenso por todos, emerge este tipo de violência de expressão
masculinista? Alguma pista poderia vir do fato de que, como se examinou ao longo do ensaio,
necessário antes, para a cosmovisão incel, sentir-se como merecedor de algo que lhe foi
retirado - esbulho realizado, obviamente, pela condição feminina - o que flagrantemente
esconde uma suposta superioridade que lhe foi solapada. Em síntese, um medo reativo como
afeto central que vai encontrar na formação misógina do nosso cotidiano fôlego e inspiração
suficiente para radicalização.
Espaços de socialização digital, como fóruns examinados, não possuem nada que não
corresponda, em alguma medida, às demais interações. Misoginia, racismo e xenofobia não
são particularidades do ambiente digital, mas são intensificadas recursivamente, também
como modelo de negócio, oferecendo um caminho convidativo para radicalização. O ódio às
mulheres tem se mostrado elemento propulsor de novas gerações, especialmente no que diz
respeito aos INCELS. Não precisa ser um INCEL para odiar mulheres ou, de algum modo,
requerer a reestruturação dos papeis de gênero (momento em que surgem os redpills na
versão afirmativa de reestruturação dos papeis tradicionais a partir da afirmação dos gêneros
e os blackpills na versão destrutiva em que almejam a completa submissão da mulher e no
limite o fim da sociedade). Tais elementos compõem a rotina das vulnerabilizações de uma
sociedade antifeminista, bastando emulá-las digitalmente ao extremo.
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Idioma original: Português
Convidado