ANAMORPHOSIS – Revista Internacional de Direito e Literatura, v. 11, n. 1, e1312
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somos confrontados com uma infamiliaridade (e, neste último caso, se pode estar diante
também da materialidade dos futuros): o que não está ordenado não nos é totalmente
apreensível. É Freud quem elabora essa infamiliaridade:
Somos lembrados de que o termo heimlich não é unívoco, mas pertence a dois
grupos de ideias que, não sendo opostos, são alheios um ao outro: o do que é
familiar, aconchegado, e do que é escondido, mantido oculto. Unheimlich
seria normalmente usado como antônimo do primeiro significado, não do
segundo. Sanders nada nos diz sobre uma possível relação genética entre os
dois significados. Nossa atenção é atraída, de outro lado, por uma observação
de Schelling, que traz algo inteiramente novo, para nós inesperado.
Unheimlich seria tudo o que deveria permanecer secreto, oculto, mas
apareceu. (Freud, 2010, p. 338)
Nas tramas do material se escondem, portanto, as potências dos passados e dos futuros,
e Freud sugere que há:
[...] um processo de desocultamento, um processo para desenvolver o
Heimlich “na direção da ambiguidade, até afinal coincidir com o seu oposto”,
fazer do Unheimlich uma espécie de Heimlich, ou melhor, descobrir como esse
Unheimlich é uma espécie de Heimlich [...] (Klausner, 2024a, p. 390)
Esse processo de desocultamento constitui um objetivo para a “assombrologia”
(hantologie, hauntology, espectrologia etc. – Fisher, 2024, p. 35, nota 8) aqui elaborada.
Enquanto método artístico, é se deixar possuído, “não tanto falar pelo alienígena, mas deixá-
lo falar através de você” (Fisher, 2024, p. 65):
Aquele que está possuído também é despossuído – de sua própria identidade
e voz. Mas esse tipo de expropriação é, sem dúvidas, uma pré-condição para
uma escrita e performance mais potentes. Os escritores precisam sintonizar
outras vozes; os intérpretes devem ser capazes de ser controlados por forças
externas [...] (Fisher, 2024, p. 69)
Que vozes são essas? Não há que se falar de pureza aqui. Os espectros são captados, direta
ou indiretamente, e transformados pelos artistas em fantasmas. Fantasma é o nome dado aos
desenhos que fazemos na alma a partir da fantasia da imagem das coisas, sempre vinculada ao
desejo e à memória (Agamben, 2012): logo, nosso desejo é sempre determinante desse
encontro e ele (também) constitui a voz.
Poderíamos dizer, portanto, que o desejo, com todas as suas ambiguidades, que contribui
na formação dos fantasmas dos romances góticos, por exemplo, é desejo pessoal, das
personagens e do autor, desejo impessoalizado, da narrativa e do tempo. Aqueles fantasmas
são funcionais dentro da narrativa (impessoal) e também emergem das personagens que têm
com eles contatos (pessoal), são frutos dos desejos do autor em relação à sua obra (pessoal) e
do tempo que o condiciona e condiciona o significado e o sucesso da obra (impessoal). Desejos
que atravessam o mundo criador da obra e o mundo nela criado.
E, é claro, mesmo nas obras onde não há fantasmas stricto sensu, as imagens
constituídas (por palavras, cor e traço, sons etc.) são fantasmas: elementos do real