© 2025 by RDL | ISSN 2446-8088 | Doi: 10.21119/anamps.11.1.e1334
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ANAMORPHOSIS REVISTA INTERNACIONAL DE DIREITO E LITERATURA
CONSTITUIÇÃO RADICAL E(M) UM SAMBA-ENREDO À MACABÉA: CORTEJO PELO GRITO
QUE ECOA NA FERIDA ABERTA DO BRASIL
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CONSTITUCIÓN RADICAL Y/EN UN SAMBA-ENREDO DE INSPIRACIÓN MACABÉA: UNA PROCESIÓN POR
EL GRITO QUE RESUENA EN LA HERIDA ABIERTA DE BRASIL.
THE RADICAL CONSTITUTION AS/IN A SAMBA-ENREDO TO MACABÉA: A PARADE THROUGH THE
ECHOING CRY INSIDE BRAZILS OPEN WOUND
VERA KARAM DE CHUEIRI
2
TAÍSSA ALBERTINA DE NADAI
3
RESUMO: Este trabalho estrutura-se enquanto um cortejo carnavalesco pela teoria da Constituição Radical (Chueiri,
2024), através da (re)leitura d’A hora da estrela (Lispector, 2020) e da escuta de artistas que cantam o Brasil,
fazendo de Macabéa, antes abandonada pelo Direito, a musa do carnaval. O enredo se inicia com seu corpo
estendido ao chão. O tempo é suspenso para que lidemos com sua história. Ela irrompe do asfalto como uma “flor
feia”. Após, transforma-se em Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2003), aprendendo a “gritar”. Embora inicialmente seu
grito se mostre ineficaz, o sangue que escorre de si a transforma na Flor rubra de Mulungu (Evaristo, 2023). E eis a
ala final. Demonstra-se, então, que a tática tem de ser radical, assim como o samba-enredo que se propõe a
descortinar os percursos da Constituição Radical. É preciso paralisar o tempo para sentir, analisar as raízes das
mazelas, e enfim apontar maneiras de não apenas garantir o direito ao grito, mas garantir que o povo saiba gritar e
que seu barulho seja ouvido. Em síntese, Macabéa renasce enquanto ser de direito e in(corpo)ra a potência
constituinte necessária para que novas flores (e novos mundos) também (ir)rompam (d)o asfalto da avenida.
PALAVRAS-CHAVE: Constituição radical; Macabéa; cortejo; samba-enredo.
RESUMEN: Esta obra se estructura como un desfile de carnaval a través de la teoría de la Constitución Radical
(Chueiri, 2024), mediante una (re)lectura de A hora da estrela (Lispector, 2020) y escuchando a artistas que cantan
sobre Brasil, convirtiendo a Macabéa, previamente abandonada por el Derecho, en la musa del carnaval. La trama
empieza con su cuerpo tendido en el suelo. El tiempo se suspende para que podamos adentrarnos en su historia.
Ella emerge del asfalto como una "flor fea". Después, se transforma en Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2003),
aprendiendo a "gritar". Aunque inicialmente su grito resulta ineficaz, la sangre que fluye de ella la transforma en la
Flor Roja de Mulungu (Evaristo, 2023). Y aquí está la sección final. Se demuestra, entonces, que la táctica debe ser
1
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -
Brasil (CAPES).
2
Doutora e Mestra em Filosofia pela New School for Social Research. Mestra em Direito pela Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC). Graduada em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora titular
de Direito Constitucional no Curso de Graduação em Direito e no Programa de Pós-Graduação em Direito da
Universidade Federal do Paraná. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7069-5272. CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/6091643712340626. E-mail: vkchueiri@ufpr.br.
3
Mestranda em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Direito Processual Civil e
em Direito das Famílias e Sucessões pela Academia Brasileira de Direito Constitucional (ABDConst). Graduada
em Direito e Graduanda em Letras pela UFPR. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-6082-296X. CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/0123344536070565. E-mail: taissadenadai.adv@gmail.com.
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radical, al igual que el samba-enredo que propone desvelar los caminos de la Constitución Radical. Es necesario
detener el tiempo para sentir, analizar las raíces de los males y, finalmente, señalar maneras no solo de garantizar
el derecho a gritar, sino de garantizar que el pueblo sepa gritar y que su voz sea escuchada. En resumen, Macabéa
renace como un ser de derechos y encarna el poder constituyente necesario para que nuevas flores (y nuevos
mundos) también broten del asfalto de la avenida.
PALABRAS CLAVE: Constitución radical; Macabéa; desfile; samba-enredo.
ABSTRACT: This work is structured as a carnival parade over the theory of the Radical Constitution (Chueiri, 2024),
through a (re)reading of A hora da estrela (Lispector, 2020) and through listening to artists who sing about Brazil,
making Macabéa, previously abandoned by the Law, now the muse of carnival. The plot begins with her body
stretched out on the ground. Time is then suspended so that we can deal with her story. She bursts from the asphalt
like an "ugly flower." Afterwards, she transforms herself into Ponciá Vicêncio (Evaristo, 2003), learning how to
"scream." Although initially her scream proves ineffective, the blood that flows from her transforms her into the
Red Flower of Mulungu (Evaristo, 2023). And here is the final section. It is demonstrated, then, that the tactic must
be radical, just like the samba-enredo that proposes to unveil the paths of the Radical Constitution. It is necessary
to freeze time in order to feel, to analyze the roots of the ills, and finally to point out ways not only to guarantee the
right to scream, but to guarantee that the people know how to scream and that their noise is heard. In short, Macabéa
is reborn as a being of rights and so embodies the constituent power necessary for new flowers (and new worlds) to
also break forth from the asphalt of the avenue.
KEYWORDS: Radical constitution; Macabéa; parade; samba-enredo.
“Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando”
(Sangrando na voz de Maria Bethânia)
1 INTRODUÇÃO
No Brasil, todo início de ano é possível prestigiar os cortejos das escolas de samba no
Carnaval. O enredo das saídas é a história contada por alegorias, fantasias, imagens, cores e
sons. o “samba-enredo” propriamente dito é a trilha sonora, a música cantada para
identificar a narrativa disposta, unindo os detalhes de todo o espetáculo (Freitas, 2022).
Em muitas ocasiões, como a de 2019, ano no qual descortinou-se a “História para ninar
gente grande”, a história escolhida é precisamente a de nosso país, ou, no caso, a história que
“não se conta”, o “avesso do mesmo lugar” o relato das vidas negligenciadas no Brasil desde
1500 (Domênico et al, 2019). Quem se dispõe a assistir à apresentação não sai ileso das
denúncias, aprende com o que é entoado nas passarelas. Afinal, “é na luta que a gente se
CHUEIRI; NADAI | Constituição radical e(m) samba-enredo...
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encontra” e o Brasil, como uma de suas particularidades, possui apreço em cantar suas mazelas
como forma de sobreviver e de não sucumbir.
Bruna da Penha de Mendonça Coelho, em seus estudos sobre a “percepção discursiva das
contradições sociais pelo samba e pelo direito” (2023), aponta que o samba-enredo carioca
compreende as promessas e as expectativas normativas em uma temporalidade própria.
Entrelaça-se com “processos históricos pulsantes e contraditórios” (idem, p. 16). Sua
enunciação é capaz de denunciar as contradições sociais e a falta de acesso aos direitos, como
entoado nas avenidas em 1989, pela Vila Isabel: “É hora da verdade. A liberdade ainda não
raiou. Queremos o direito de igualdade. Viver com dignidade não representa um favor. Direito
é direito” (King et al, 1989).
Enunciação esta que também envolve a construção contínua realizada durante o ano, até
a apresentação na avenida, envolvendo todo o processo, as participações, etc., de modo que o
samba-enredo, quando unido ao Direito, não se torne mero instrumento, mas método
completo de estudo e de enunciação. Isso, por sua vez, tem chamado cada vez mais a atenção
de teóricos do Direito, ante à potência de se versar sobre (e com) o Direito, através do samba(-
enredo)
4
.
E é sob esta perspectiva de que o presente trabalho se constitui, no ímpeto de enveredar-
se pela teoria da Constituição Radical (Chueiri, 2024), mediante cortejo às raízes das mazelas
brasileiras, através da (re)leitura de A hora da estrela (Lispector, 2020), fazendo de Macabéa,
antes negligenciada e desprovida de seus direitos, agora detentora d’“o direito de existir no
imaginário artístico e cultural brasileiro” (Alves; Santos, 2022) e estrela protagonista da novela
a musa do carnaval.
A Constituição Radical engatilha os corpos brasileiros para que ajam politicamente, de
modo a “arrancar” das promessas (legislativas, mas não só) o que lhes é de direito. Sua
premissa é a de possibilitar que o povo compreenda que não apenas é constituído pela(s)
norma(s), mas também (e sobretudo) é dela(s) constituinte (Chueiri, 2024). Contudo,
inúmeros são os desafios encontrados nos percursos daqueles que ousam empoderar-se. As
lutas e os atos políticos são demandas contínuas, ativadas pela Constituição, que
comprometem as pessoas e, também, que prometem para as pessoas.
Constrói-se, portanto, um samba-enredo aberto e que se destina a narrar uma vida, que
pode ser lida como tantas outras vidas e que, no próprio percurso, se depara com as mazelas
estruturais, lida com elas e responde aos questionamentos que exsurgem. Um samba-enredo
4
Alexandre Fabiano Mendes é um exemplo de teórico do Direito que se dedica aos estudos da potência do samba
e do samba-enredo no que diz respeito à prática jurídica. Atua com projetos de extensão que apoiam projetos
como o “Sambando para o futuro” do G.R.E.S Acadêmicos do Salgueiro e o “Justiça como Arte”.
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radical, no sentido de que vai até a raiz de sua própria constituição e nos coloca (a todos) como
seus roteiristas posto que todos corpos (cada um à sua maneira) da mesma realidade exposta.
Afinal, conforme aponta Miriam Coutinho de Faria Alves, “o caráter pulsante da
experiência jusliterária clariciana nos aproxima da justiça” (2020, p. 10), em “experiência
coletiva”, em um aprendizado (conjunto) que “aponta percursos, incompletudes, instiga sobre
ordem/desordem e revisita [as fronteiras artificiais] entre o permitido e o proibido” (idem)
precisamente o que um samba-enredo “clariciano” pode proporcionar, sobretudo se
ponderando que a própria obra em comento foi elaborada com fundo musical
5
, um “sonoro
protesto social” (ibidem).
Em síntese, o enredo se inicia com o corpo de Macabéa estendido ao chão após
atropelamento fatal. O tempo é suspenso para que toda a arquibancada tenha acesso à imagem
e não possa escapar do contato com sua visceralidade. É aberta uma oportunidade de enxergar
não apenas a ferida do corpo atropelado, mas a “ferida aberta do Brasil”
6
.
Dando seguimento ao percurso, com a parte do “samba”, ouve-se, nas epígrafes deste
trabalho, o grito que ecoa do sangue que escorre da ferida, por artistas que dedicam suas
carreiras para buscar o “coração do Brasil” e denunciar a cratera de disjunções narrativas
instaurada em nosso solo, bem como demonstrar como resistimos radicalmente à ela em nosso
cotidiano.
Uma primeira releitura é, então, feita, para que Macabéa (ir)rompa (d)a avenida
enquanto flor nauseabunda e desbotada. Ela é retratada enquanto aquela que “não sabe gritar”,
mas resiste e age politicamente ao insurgir da improbabilidade, ensinando lições de
sensibilidade (Fig. 1). Após, Macabéa se transforma em Ponciá Vicêncio, protagonista de
Conceição Evaristo. Aprende a gritar, mas não é ouvida. o, com isso, expostos alguns dos
problemas estruturais que interditam o acesso/fruição aos direitos: muitas vezes, mesmo
5
Desde as primeiras páginas d’A hora da estrela, a música aparece como fundo da narrativa, tanto explicitamente,
com a menção de canções e compositores, mas também nas reviravoltas da história, representadas pelas
“explosões” nos parênteses de Rodrigo SM. Nesse sentido, Cristiano Paixão possui um trabalho bastante apurado
que estuda a presença da música na obra: PAIXÃO, Cristiano. Ressonâncias de Clarice Lispector e Arnold
Schönberg: música e narrativa em "A hora da estrela". In: Jacinto Nelson Miranda Coutinho. (Org.). Direito e
Psicanálise: interseções e interlocuções a partir de A hora da estrela de Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2010, v. , p. 81-95.
6
Diz-se “ferida aberta do Brasil”, pois, no presente texto, adota-se a compreensão de que o país vive em um “eterno
tempo presente” desde 1500, uma vez que o houve passado, nem futuro, no Brasil, mas apenas uma constância
de explorações (externas e internas) que ocasionam, todos os dias, e com o embate entre as placas tectônicas da
Política e do Direito, “fendas” nas terras mal cuidadas, onde se exilam (involuntariamente) diversos personagens
brasileiros, completamente invisibilizados e fadados à vida fronteiriça. Fendas nas quais é possível ouvir um grito
emudecido séculos, sob os destroços de potências genuinamente brasileiras que nunca puderam vir à
superfície (ou ao “centro”). Frise-se, por fim, que o termo “ferida aberta do Brasil” é também utilizado por Marina
Maura de Oliveira Noronha e Edgar Cézar Nolasco, em atenção aos estudos de “escrit(ur)a corporal” propostos
por Glória Anzaldúa (2023).
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quando se possui consciência política, buscando enxergar-se na norma, e agindo politicamente
em prol de angariar melhorias de vida, os direitos não são alcançados.
O clímax se instaura e o desfile chega aos derradeiros momentos. Macabéa supera as
adversidades pós grito, fazendo com que o sangue vermelho escorrendo de sua ferida molhe a
flor antes desbotada, transformando-a em flor rubra de esperança e força Flor de Mulungu,
representante da “trindade brasileira”
7
(Fig. 2).
Em outras palavras, o cortejo demonstra que, para efetivar a Lei/a Constituição, também
a tática precisa ser radical. Isto é, ao se versar sobre a realidade de uma vida, é imprescindível
que seja possibilitado experienciá-la, como em um samba-enredo, onde o espectador
ativamente canta e dança, enquanto aprende, de modo a garantir que a experiência de empatia
e o empoderamento acessem a raíz da mazela, desconstruindo-a. Afinal, não basta garantir o
“direito ao grito”, se Macabéa não souber gritar. Ainda, não basta ensiná-la a gritar, se o
sistema não permitir que o grito seja ouvido. Atuar radicalmente é, repita-se, atuar na raiz,
abarcando todas as dores e as delícias de ser brasileiro(a) algo que tem sido muito bem
representado na complexidade de nossos carnavais.
2 A MACABÉA DE DRUMMOND: NASCE A FEIA FLOR QUE NÃO SABE
GRITAR
“E de guerra em paz,
de paz em guerra
Todo povo dessa terra
quando pode cantar
canta de dor”
(Canto das três raças -
Clara Nunes)
2.1 DRUMMOND, LISPECTOR E A ATEMPORALIDADE DA DOR
(Ala 01: demonstrar que as vozes brasileiras mais diversas se confluem ao cantar a
dor e a delícia de ser brasileiro)
Carlos Drummond de Andrade faz jus ao conceito de poeta como antena do humano, “em
sintonia com o seu tempo” (Brait, s.d.). Ele despe-se do lirismo afetivo e musical para
representar, de forma ontológica e atemporal, a dureza do século XX. Ele autoriza a poesia
7
Conceição Evaristo, ao reler a história de Macabéa, aponta que ela extrapola os limites da escrita de Lispector e
se mostra enquanto uma “trindade feminina” do Brasil: “uma jovem indígena modelando uma jarra de barro,
uma mulher negra de olhando as águas do mar e uma velha portuguesa ocupada em servir o marido e os
filhos” (2023a, p.16).
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brasileira a libertar-se de quaisquer amarras estruturais, superando o verso como unidade
autônoma (Candido, 2004) e se constituindo como criador de imagens, transmissor “do”
assunto.
Com suas inquietudes natas, tão bem analisadas por Antônio Candido (idem), navega
entre problemas sociais e problemas individuais, os quais entrecruzam-se, indissociáveis. Não
como separar o inseparável. O poeta constrange-se com suas necessidades viscerais, que
muito bem poderiam -lo encurralado no silêncio, mas que, ao invés disso, ensejaram na
necessidade vibrante de buscar a expressão libertadora, explorando a “matéria indesejada”
(ibidem). E é nesse ponto que Lispector dialoga com Drummond. Ela, que cose para dentro,
enquanto muitos cosem para fora (Mis, 1976); ela que passa a vida experimentando novas
formas de expressar “a” coisa, nadando livremente pelas searas mais recônditas da linguagem,
em busca da palavra universal. Em busca de, justamente, “desconstrangir-se” em prol da
expressão libertadora. Mesmo a liberdade sendo pouco, quase nada, inexistindo palavra que
defina seu desejo (Lispector, 2019, p.67).
Drummond caminha entre inúmeras vozes poéticas ao longo de sua obra. Começa
pronto, anunciado por um anjo torto, que prenuncia a torção e a margem como núcleo
emocional de sua poesia (Candido, 2004). Caminha desde João sofredor de amores
8
, ao poeta
social que explode no vasto mundo
9
e que, apesar de ainda se sentir impotente, consegue
alcançar “o” outro. Lispector também. Iniciada ao lado de seu coração selvagem (2019),
transmuta-se dentro de personagens que, apesar de serem muito de si, o fazem porque existe
esse outro. Ela desesperadamente quer encontrá-lo, pois enxerga que as pessoas não se
enxergam apenas vêem as projeções que criam umas das outras. Em suas obras, os autores
trabalham personagens (ou eu-líricos) que ora explanam o universal dentro do Brasil, ora
explanam o Brasil dentro do universal. Trata-se de um constante movimento de “dentro e
fora”, ou o movimento de “aproximação e afastamento”, tão bem utilizado por Rodrigo SM,
narrador de A hora da estrela.
Nesse sentido, pode-se dizer que Macabéa é localizada: é mulher, é nordestina e vive no
Rio de Janeiro nos anos 70. Mas poderia ser qualquer outra mulher brasileira que também
habita a ferida aberta a qual, por sua vez, reflete dores que não são de aqui, muito menos
de “agora”: “às vezes, Macabéa confundia também em si povos espalhados pelo mundo.
Africanos e seus descendentes, árabes, ciganos, indianos, judeus, povos nativos das terras das
Américas e outros e outros” (Evaristo, 2023, p. 16). Macabéa, portanto, poderia, inclusive, ser
uma personagem de Drummond. Uma de suas flores. E é o que se passa a demonstrar.
8
Alusão ao poema Quadrilha, publicado no livro Alguma Poesia, no ano de 1930 (Drummond, 2013).
9
Alusão ao poema Poema de Sete Faces, publicado no livro Alguma Poesia, no ano de 1930 (Drummond, 2013).
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2.2 MACABÉA: PEDRA OU FLOR NO CAMINHO?
(Ala 02: demonstrar que Macabéa(s) pode(m) romper com a estrutura torpe)
Figura 1
O poema A flor e a náusea foi publicado dentro de A rosa do povo, em 1945 (Drummond,
2000, p. 15). A hora da estrela, por sua vez, em 1977 (Lispector, 2020), junto dos derradeiros
sopros de vida de Lispector
10
. As realidades são outras? São. Mas ao mesmo tempo são as
mesmas: a humanidade esfacelada.
Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem
armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou
de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e
espera. O tempo pobre, o poeta pobre, fundem-se no mesmo impasse.
(Drummond, 2000, p. 15)
Nas primeiras estrofes do poema, tem-se o poeta preso à sua condição de observador
impotente, que enxerga, com crueza, os rasgos do cotidiano e que busca “de branco” a paz,
dentro da realidade cinzenta. Ele é obrigado a sair do automático. Não consegue olhar e não
ver. É como se os olhos funcionassem mais do que deveriam.
O poeta percebe, desde logo, que a paz, de todo, ainda não foi alcançada, tampouco “a”
justiça. Ele enxerga-se como um pária social, um “poeta pobre”, tal qual o “tempo pobre”. Faz,
com isso, uma primeira e bastante sutil movimentação para se aproximar “do outro”. O poeta
é (também) Rodrigo SM que, quando escreve, não mente, marginaliza-se e se destitui de
qualquer classe social, para mergulhar no objeto narrado, na situação denunciada, ainda que
sem meios de salvar a personagem ou sequer de salvar a si mesmo: “Em vão me tento explicar,
os muros são surdos. Sob a pele das palavras cifras e códigos. O sol consola os doentes e não
os renova. As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase” (Drummond, 2000,
p. 15).
10
Clarice Lispector faleceu na data de 09 de dezembro de 1977.
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8
Rodrigo, em sua dedicatória em A hora da estrela, começa dizendo que a história que
contará é um estado de emergência e calamidade pública. Ele pede que cada um a reconheça
em si mesmo, porque “todos nós somos um (Lispector, 2020, p.8). Diz que não se trata de
uma narrativa, é antes de tudo uma vida primária que respira, respira, respira (idem, p.11). Ele
-se obrigado a contar sobre. Revelar a vida de Macabéa. “Porque o direito ao grito”
(ibidem, p. 6). Contudo, as barreiras construídas, desde a tenra idade dos corpos em sociedade,
transformam-se nesses grandes muros que os “protegem” de enxergar a realidade, deixando-
os (a todos) surdos para o grito alheio e, em muitos casos, até mesmo para o seu próprio grito,
emudecido.
A história de Macabéa parece fácil e à mão de todos, mas sua elaboração é díficil”, pois
Rodrigo tem que tornar nítido “o que está quase apagado” e o que ele mesmo mal (Lispector,
2020, p.16). É evidente, é escrachado, mas ao mesmo tempo mal se vê. São as contradições da
desigualdade social do país, caladas por tijolos que se sobrepõem diariamente na cratera
aberta. É possível questionar, nesse momento: de que adianta o “direito ao grito” se o “muro”
que o coíbe é incomensuravelmente maior?
Macabéa é criatura que vive em completa negação. Ressalva-se: ela não nega. Ela nunca
chegou a ter qualquer coisa para negar. O que se tenta demonstrar, no presente, é que ela “é”
a própria negação. Negativa. Ela constitui-se em uma espécie de “constituição ao revés”. O
revés do parto. O avesso de mal gosto de um livro produzido por tantas mãos. Mãos incapazes
de alcançar esse ser. Mas ela também é a negação da negação. Ela “inventa a felicidade”
11
. Ela
representa, com seu corpo, a própria dialética.
Rodrigo diz que não quer enfeitar a palavra, pois se tocar no pão da moça, esse pão se
tornará ouro “e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome” (Lispector, 2020, p.13).
Ele tenta falar de forma simples, para captar a sua delicada e vaga existência. Novos
questionamentos insurgem, com isso, quanto à temática dos direitos: de que adianta serem
belas as palavras jurídicas se não fornecerem a chave para o seu deciframento e para a leitura
desses códigos inacessíveis? Para a incorporação, na vida das pessoas, do que é dito na norma?
Macabéa, quando se depara com o livro Humilhados e ofendidos, de Fiodor Dostoievski,
por um momento sente vontade de -lo, espelha-se nele. Contudo, logo em seguida, decide
não se aproximar, pois crê que nunca foi ofendida ou humilhada na vida (Lispector, 2020, p.
36). Em outras palavras: “ela não sabe gritar” (idem, p. 6).
11
Alusão à ideia de que Macabéa, assim como outras mulheres nordestinas, inventam” a felicidade em seu
cotidiano: “Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente é a minha própria dor, eu que
carrego o mundo e falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas
que andam por aí aos montes.” (Lispector, 2020, p. 10).
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“Que tristes são as coisas, na prática. Que tristes e inefetivas. Consideradas sem ênfase”
(Drummond, 2000, p. 15). Eis a melancolia do poeta. Eis a melancolia de Lispector. Eles
despem-se da impotência visceral e chegam à impotência que paralisa, petrifica, constitui-se
em mais um tijolo do muro. A intenção era boa, mas “o sol consola os doentes e não os renova”.
E “os fatos são pedras duras”, que se opõem à tragédia vivificante, à matéria vertente, parecem
uma imagem de esterilidade (idem).
Vomitar esse tédio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os
homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o
mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los? Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados. Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa. Os ferozes padeiros do mal. Os
ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Ao menino de 1918 chamavam
anarquista. Porém meu ódio é o melhor de mim. Com ele me salvo e dou a
poucos uma esperança mínima. (Drummond, 2000, p. 15)
“A vida é um soco no estômago” (Lispector, 2020, p.75) ocasionado pelo impacto do
atropelamento de Macabéa, que a traz de volta ao mundo à força. Ela experimenta a vida de
uma maneira muito ímpar, com o baque. É atropelada pelo futuro. Estava grávida do futuro
(idem, p.72). Sente o sintoma do enjoo mais cru. As pessoas são retratadas como escravas do
cotidiano (escravas pois desumanizadas). A pedra que havia no meio de seu caminho, engolida,
alcança a náusea da primeira estrofe e, com o ácido feroz do estômago revirado de Macabéa,
se desconstitui em lava quente, expelida por todos os poros. O poeta começa a “vomitar” sobre
a cidade. “Através dessa jovem dou o meu grito de horror à vida” (ibidem, p.29).
Permite-se, então, a revolta. O ódio serve de combustível para construir o poema, a
esperança, o grito simbólico que poderá ser ouvido (apesar dos muros e das paredes do
buraco), pois será visto rompendo o cinza, o concreto, a prisão do homem. Ele (o poeta?
Rodrigo?) sente raiva também e sobretudo da própria Macabéa. Por que ela não reage?
Por que não grita logo de uma vez?
Ela me incomoda tanto que fiquei oco. Estou oco desta moça. Ela tanto mais
me incomoda quanto menos reclama. Estou com raiva. Uma cólera de
derrubar copos e pratos e quebrar vidraças. Como se vingar? Ou melhor, como
me compensar? sei: amando meu cão que tem mais comida do que a moça.
Por que ela não reage? Cadê um pouco de fibra? Não, ela é doce e obediente.
(ibidem, p.23).
E com essa raiva toda, atinge-se, enfim, a troca. Rodrigo a nordestina se olhando ao
espelho e um rufar de tambor (ibidem, p.19) no espelho aparece o seu rosto cansado e
barbudo. “Tanto nós nos intertrocamos” (ibidem). Ele sente-se culpado e também culpa os
leitores, os meros leitores que logo fecharão o livro e seguirão com suas vidas. Explana a
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hipocrisia de todos os envolvidos. Fala que todos sabem muito bem da realidade de Macabéa
mas “se fingem de sonsos” (ibidem, p.10) .
Macabéa não é “personagem”. “É verdadeira, apesar de inventada” (ibidem). É o que se
denuncia no cotidiano exposto da sociedade brasileira: “Cuidai dela porque meu poder é
mostrá-la para que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa da esvoaçada magreza”
(ibidem, p.17). Lispector faz uso impiedoso da boa vontade de Rodrigo. Ele deixa de ser
Rodrigo (ou de ser Clarice?) e passa a realmente ser Macabéa. E assim transmite o que ela
“é”. Transmitindo, também, o que se é, no país, no fim das contas: mais uma poeira de
existência que se faz barreira cotidiana. “Pôr fogo em tudo, inclusive em mim!” que esse
“eu” seria o próprio algoz de si, “padeiro feroz”, “leiteiro do mal” (Drummond, 2000, p. 15).
Mas uma esperança, ainda que mínima, advinda do desconstituir-se/despossuir-
se/despersonalizar-se pelo outro.
Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do
tráfego. Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam
completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos
livros. É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente
passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças
avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em
pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
(Drummond, 2000, p. 15)
O poeta cria essa esperança e duvida daquilo que criou. Afinal, ainda existem “pequenos
pontos brancos” movendo-se no mar (navios de guerra?) e “galinhas em pânico”. É obscura a
vida alcançada ao avesso. Quando ele a “constituição ao revés” de Macabéa, não consegue
ficar de pé. São muitos resquícios de morte. Na verdade, são a própria morte. Por
atropelamento, impiedosa.
O começo da obra reside em seu fim e seu fim acaba sendo a própria morte. Macabéa
morre para ser humana. Morre para ser mulher. Morre para ser livre. Antes ela não possuía
qualquer condição. Agora tem seu momento de brilho, único, certeiro. É essa a hora da estrela,
“pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de
cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes” (Lispector, 2020, p.25).
Essa flor feia, ridícula e faminta foi capaz de furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Pois,
pior do que a morte, é ter uma existência interminável. E Macabéa termina, no chão, sendo
vista. É feia, mas é um começo. É um mundo que pode passar a ser enxergado. O que enseja a
morte, no abismo avassalador do real, acessado pelos despossuídos de si. É a desconstrução de
tudo o que se achava que se via. É preciso morrer, mesmo. Manter em suspensão. Enquanto o
poeta faz carinho no fazer poético até encontrar um mínimo sentido. Até encontrar a palavra
CHUEIRI; NADAI | Constituição radical e(m) samba-enredo...
11
que será porta aberta, sem necessidade de chave e de fechadura, e que permitirá acesso de
todos ao direito”, ao palpável, ao mínimo, ao verdadeiro mínimo, que a maioria não tem.
Mínimo que nem quem acha que tem, tem.
“Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos” (Lispector, 2020, p.78). Sim.
Mesmo que mofados, a la Caio Fernando Abreu (2013). É o que se percebe na arte elaborada
em tributo ao presente enredo, por Paula Naomi Alvarez (Fig. 1). Uma erva daninha que brota
do asfalto. Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É
feia. Mas é realmente uma flor.
3 INTERVALO: É TEMPO DE GRITAR
“O pulso pára pra pensar
Vem se espalhando pelo chão
Um jeito cego de enxergar
O sangue em minhas mãos
Que irá
Queimar
Que cor
De quem será?
Nas unhas tem um pouco d'eu
(...) Congela o instante em que tremeu”
(Casca - na voz de Gal Costa)
Da união entre Drummond e Lispector surge a imagem de Macabéa enquanto flor que
irrompe do asfalto, um símbolo de resistência.
Lispector, em seus derradeiros escritos, realiza justamente esse movimento de algo que
se concebe de dentro para fora. Após trabalhar com obras bastante “introspectivas”, nas quais
as personagens buscam encontrar-se dentro de si mesmas, acessarem esse “eu” absoluto que
“verdadeiramente é” e que existe “atrás do pensamento” (Lispector, 1998, p.13), ela (uma)
Macabéa na rua (Gotlib, 2013, p.588) e decide que é momento de viajar ao externo, agir. Ela
assume as perguntas de Macabéa como suas, mesmo sabendo que não possui as respostas.
Em Um sopro de vida (obra escrita em concomitância à Hora da estrela), ela faz a
mesma movimentação (Lispector, 1994). Apesar de ainda tímida, cria a personagem Ângela
Pralini como tentativa de gritar o que atravanca um corpo em suas angústias mais abissais.
Angústias que, se bem analisadas, sempre recaem a um ideário social corrompido e perverso,
que representa a ferida aberta do Brasil.
Com Macabéa, ao lado de Ângela, ela escancara as chagas do país. Chagas que Suely
Rolnik chama de inconsciente colonial-capitalístico (Rolnik, 2023). Chagas que ardem,
corroem, latentes, emudecidas, por dentro, feito os cupins que corroem o edifício da
protagonista do filme Aquarius (2016).
ANAMORPHOSIS Revista Internacional de Direito e Literatura, v. 11, n. 1, e1334
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Drummond e Lispector conseguem, então, romper com essa estrutura perversa e fazer
nascer, da improbabilidade mais atroz, uma flor feia (Fig. 1).
A partir disso, retoma-se a ideia do tempo como maneira de agregar à reflexão. O poema
de Drummond foi escrito sob os destroços das duas grandes guerras que assolaram o século
XX (ocorridas entre 1914-1948 e 1939-1945). Os últimos livros de Lispector, por sua vez, foram
gestados dentro da ditadura militar no país (ocorrida entre 1964-1985). Da mesma maneira
que o “tempo” não existe, sendo precisamente aquilo que “não é” (ou, lendo Aristóteles, “o
momento do tempo, o seu agora, é, simultaneamente, aquilo que não é mais, tanto quanto
aquilo que é” (Chueiri, 2011, p. 819)), as trocas entre autores, cantores, personagens e
realidades, em ciranda, justificam-se ante ao fato de que nada do que se narra ocorre, de fato,
no presente. Na voz de Bethânia: “agora que agora é nunca, agora posso recuar” (Antunes,
2006).
E, ao mesmo tempo, absolutamente tudo ocorre no presente, pois não deixa de ocorrer
enquanto não cessar o sangrar da ferida exposta. Nas palavras de Lispector: “vivemos
exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será
um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento" (Lispector, 2020, p.16). Então,
Macabéa, enquanto flor que irrompe dessas estruturas caóticas de um passado-presente que
se projeta distopicamente para o futuro, tenta frear o ritmo frenético do tempo enquanto
“chronos”
12
, na busca do “kairós”
13
, realizando uma releitura ao “tempo messiânico”, como uma
interrupção do tempo e, também, da Lei, para a restauração da sua estrutura originária
(Chueiri, 2011).
GH, também personagem de Lispector, ao refletir sobre o tempo, enquanto líquido e
indecifrável, pondera que, para poder “colher as coisas com as mãos, as coisas [tem] que se
coagular como frutas. Nos intervalos que nós chamávamos de vazios” (Lispector, 2009, p.118).
Ela define esse “intervalo” como uma “enorme flor” que se abre, inchada em si mesma, feito
um pedaço de sangue solidificado que volta a escorrer, líquido, pelos dedos, quando
apertado pelas mãos. Isto é, GH consegue paralisar o tempo (antes líquido), criando esse
“intervalo” através de um coágulo-flor que pode ser analisado delicadamente (idem). Se
pudesse se comunicar com o presente de agora, certamente GH concordaria que Macabéa é
precisamente esse coágulo-flor.
GH prossegue sua odisseia estudando essa enorme flor como se estivesse mexendo com
“elementos primários de laboratório” e conclui que “ser” é estar de diante de um susto
12
O tempo do relógio, o tempo da guerra, da ditadura, do Brasil que ainda luta para se manter democrático e
erradicar as mazelas de desigualdade e repressão.
13
O tempo efetivamente a ser ou já sendo vivido.
CHUEIRI; NADAI | Constituição radical e(m) samba-enredo...
13
(ibidem, p.66). Macabéa é um susto, que obriga os transeuntes a pararem por um instante e
olhá-la ao chão. Na voz de João Bosco: “Tá um corpo estendido no chão” (Blanc; Bosco,
1975). Nas letras de GH: “Eu estava tão assustada que ainda mais quieta ficara dentro de mim.
Pois parecia-me que finalmente eu ia ter que sentir” (Lispector, 2009, p.80).
(Es) “lá” uma vida à mostra, uma enorme flor que irrompe, feia, atropelada, e que
obriga as pessoas a estarem de diante do susto e a sentirem aquela morte. Ainda que por
um breve intervalo de “tempo”, o suficiente para não conseguirem mais ignorar a situação que
se descortinou tão bruscamente. Expõe-se a fenda temporal.
Novamente GH facilita a compreensão: “Era já. Pela primeira vez na minha vida tratava-
se plenamente de agora. Esta era a maior brutalidade que eu jamais recebera. Pois a atualidade
não tem esperança, e a atualidade não tem futuro: o futuro será exatamente de novo uma
atualidade” (idem). É para doer, é para enxergar a flor-coágulo e ver o sangue escorrer entre
os dedos. É para que a esperança exista, mas exista na atualidade, no presente, e não como
uma promessa de algo.
Pois o algo é, está e urge.
Macabéa “morre sem saber para onde, e esta é a maior coragem de um corpo” (ibidem).
Nesse momento específico de paralisação do passado-futuro, insurge-se a oportunidade de
pensar sobre a situação anterior e a situação em porvir. Em outras palavras, “o movimento de
se tornar é tanto o de vir a ser quanto o de deixar de ser (morrer)” (Chueiri, 2011, p. 820).
Morre a Macabéa negligenciada e (re)nasce a esperança (ainda que desacreditada por seu
próprio criador e ainda que sinônimo de ação presente e não futura).
Lispector assume que invade o(a) leitor(a) “de onde até sangue arfante de tão vivo de
vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geleia trêmula.” (Lispector,
2020, p.10). Tem-se, então, o momento de estancar a ferida, para que Macabéa não morra mais
uma vez. É preciso compreender o que incita o alastrar da ferida e, então, o que a coagula, para
coibir as causas na raiz. Criando-se assim um canal possível para que o grito advenha e termine
de romper com as estruturas que o coíbem. Macabéa é portal. É atemporal e é a representação
bruta do próprio tempo.
Em síntese, é tempo de cultivar o grito enquanto semente, pois, previsto no passado, ele
passa, enfim, a efetivamente denunciar o horror da morte presente em plena luz do dia.
Oportuniza-se, com essa interrupção, a releitura da Constituição de Macabéa, da mesma
maneira que se releem, nesse trabalho, os escritos de Lispector pela perspectiva da flor que
surge mesmo e apesar da náusea em uma grande ciranda onde todos(as) os(as) artistas
mencionados(as) são um e, por um instante, enxergam pela mesma óptica.
O “intervalo” que se cria aqui é esse tempo de análise e ação, em experimento laboratorial
de GH, para enxergar Macabéa como um coágulo que representa a “constituição ao revés” do
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Brasil, com a pressa de saber que a qualquer instante a ferida pode se liquefazer novamente
sangrando, impiedosa, nos dedos mais bem intencionados. Na voz de Gal Costa: “O sangue em
minhas mãos, que irá queimar, que cor, de quem será?” (Continentino; , 2015).
Os textos são dotados de fragmentos que precisam ser reinterpretados de modo a
espelhar a realidade, afinal, Rodrigo demonstra que o ato da escrita “é duro como quebrar
rochas”, pois “voam as lascas como aços espelhados” (Lispector, 2020, p.16). A releitura pauta-
se no fato de que “não basta saber ler e assinar o nome”, isto é, da leitura é preciso “tirar outra
sabedoria”, é preciso “autorizar o texto da própria vida”, assim como é preciso “ajudar a
construir a história dos seus” (Evaristo, 2023b, p.110).
D’a hora da estrela, tem-se “a hora do encontro” que, para Alves e Ana Carolina Fontes
Figueiredo Mendes, é também “a hora dos direitos humanos” (2020, p. 52).
É tempo disso.
4 DENTRO DA FERIDA: A MACABÉA DE EVARISTO
(Ala 03: demonstrar a Macabéa descolonizada)
“Ô, abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Brasil! Brasil!
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória luz da Lua
Toda canção do meu amor
Quero ver essa Dona caminhando
Pelos salões, arrastando
O seu vestido rendado
Brasil! Brasil! Pra mim! Pra mim!”
(Aquarela do Brasil - na voz de Gal Costa)
Imóvel, olhando-se atentamente a ferida sobre o asfalto, é possível, de pronto, notar que
o caminho para tratar um ferimento que sangra em vermelho vivo é pernicioso. Quem, hoje,
lida com esse sangue cru no ímpeto de trabalhar com as facetas do Brasil que se insurge, é
Conceição Evaristo. Conforme Maria José Somerlate Barbosa, Evaristo, em quase todos os seus
textos narrativos, enfatiza a fortaleza de espírito e de corpo das mulheres e a criatividade como
uma fonte geradora de mudanças sociais (2023, p.116) e isso não acontece de maneira
indolor, mostra-se como mais um dia roubado da morte das protagonistas que lutam em “ânsia
de definir sua identidade num ambiente marcado pelas diferenças econômicas, sociais e
raciais” (idem, p.118).
Inspirada em Lispector, Evaristo publicou, no ano de 2023, a obra Macabéa: flor de
mulungu (2023a), como maneira de empoderar a personagem, dando-lhe novas roupagens
sociais no país. Contudo, antes de versar sobre a flor de Mulungu, e ante à perspectiva de que
a “esperança” é algo que acontece no presente e não algo deixado para o futuro, e que, conforme
CHUEIRI; NADAI | Constituição radical e(m) samba-enredo...
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preceitua GH, “prescindir da esperança na verdade significa ação, e hoje” (Lispector, 2009,
p.147), é preciso trabalhar com a realidade que de fato se aponta, projetando no agora o que se
busca, o que se encontra e o que pode efetivamente ser reinterpretado. Afinal, “a trajetória
somos nós mesmos” e “em matéria de viver, nunca se pode chegar antes” (idem, p.176).
Ponciá Vicêncio, protagonista da obra homônima de Evaristo, publicada em 2003,
exsurge como o coágulo que ainda está por se desmistificar, no barro encontrado debaixo do
asfalto, na tentativa de encontrar a origem mais primária de suas chagas, antes de voltar a
sangrar (Evaristo, 2023b). Ressalta-se, por oportuno: ainda não fechamento da ferida. A
casca é fina. Ponciá será protagonista do intervalo de tempo convocado e dos vazios contidos
nele (os quais precisam ser escancarados).
4.1 PONCIÁ VICÊNCIO: ACESSO REAL AO GRITO
(Dentro da ala 03: Macabéa enquanto Ponciá Vicêncio)
Como a nordestina, milhares de moças espalhadas por
cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões
trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente
substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas
se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a
quem. Esse quem será que existe? (Lispector, 2020, p.12)
Rodrigo SM, “com as mãos de dedos duros enlameados” (Lispector, 2020, p.16), apalpa
o invisível na própria lama, na tentativa de narrar de maneira fidedigna a vida de Macabéa,
buscando-a no mais profundo de sua constituição. Ponciá Vicêncio aparece como a figura
encontrada nessa terra úmida, dentre as “milhares de moças espalhadas” (idem, p. 12), após a
leitura efetiva de Humilhados e ofendidos. Ela remodela-se na mesma lama, agora enquanto
barro, na tentativa de mudar sua situação de vida.
Em breve síntese, tem-se uma personagem forte que resolve “tentar a sorte” na cidade
grande tal qual Macabéa o fez quando saiu do Nordeste e rumou ao Rio de Janeiro. Ela quer
mudar de vida e conseguir condições melhores para si e para a sua família. Ela enxerga que “os
seus” ainda vivem em sistema escravocrata, sem terem condições de sair da terra dos patrões
neo-coloniais (homens brancos que em algum momento nomearam as terras como suas e
impuseram normas) e ela sabe que existe o “direito ao grito”, porque ela sabe que foi humilhada
e ofendida e que não deveria -lo.
O barro mencionado é bastante presente na narrativa, demonstrando como a
personagem lida com as novas formas que advêm da matéria primeira seu talento, herdado,
é o de criar utensílios e também diversas artes nessa seara. Ela procura, com isso, “significar
mutilações e ausências e incorporar pedaços excedentes” (Evaristo, 2023b, p. 114). Ela, ainda,
busca, incessantemente, ter o direito de ser, mesmo que isso a machuque ainda mais: “Às vezes
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num exercício de autoflagelo ficava a copiar o nome e a repeti-lo, na tentativa de se achar, de
encontrar o seu eco” (idem, p. 26). Suas criações em barro eram miniaturas de vida, “para que
ela coubesse e eternizasse sobre o olhar de todos, em qualquer lugar” (ibidem, p. 89).
Entretanto, quando chega na cidade, ela se depara com um local feito completamente
contra ela, relembrando a passagem em que Rodrigo narra a viagem de Macabéa (Lispector,
2020, p.13). Escancara-se, mais uma vez, o abismo existente entre “dois brasis”, um que prevê
a “terra serena da promissão” e o outro, do sufoco, da “agressão da cidade inconquistável”
(Portella, 2017, p. 2012). Em outras palavras: um Brasil que prevê que todos são iguais perante
a lei, mas que ouve o grito de alguns corpos específicos. É ali que moram Macabéa e Ponciá
e é ali que mora “a lei” do país: “Ponciá queria ter a voz alta e forte como a dos [homens]
brancos” (Evaristo, 2023b, p. 62).
Ponciá é atropelada, também. Não literalmente por um carro, mas por toda sorte de
preconceitos advindos do “passado” colonial e escravocrata do país. Ela tenta se abrigar na
igreja e é expulsa para não atrapalhar as senhoras que gostam de rezar logo cedo. Ela namora
um homem que, assim como Olímpico de Jesus fazia com Macabéa, também não a compreende
e a ridiculariza ainda em maiores proporções, pois a violenta constantemente. Ela começa,
então, a, paulatinamente, deixar de ser a pessoa que “trabalharia, juntaria dinheiro, compraria
uma casinha e voltaria para buscar sua mãe e seu irmão” (Evaristo, 2023b, p. 39) para recair
em reflexões tais como:
O que adiantara? A vida escrava continuava até os dias de hoje. Sim, ela era
escrava também. Escrava de uma condição que se repetia. Escrava do
desespero, da falta de esperança, da impossibilidade de travar novas batalhas,
de organizar novos quilombos, de inventar outra e nova vida. (idem, p. 72)
A Macabéa enquanto Ponciá Vicêncio é, portanto, a Macabéa que tem consciência de que
merece mais, mas não consegue alcançar o que existe na promessa, nas previsões
constitucionais. Ela sofre em demasia e consegue narrar com precisão a dor de ser quem se é e
ser rejeitada, cotidianamente, por conta disso. Ela passa a vagar, em solidão e em completa
desesperança por um ambiente hostil que a rejeita. A ferida, exposta, perde a casca e sangra
em desespero, alastra-se em um grande vazio no qual Ponciá-Macabéa grita(m), mas sua voz
não aparece do lado externo. Por não conseguir ser ouvida, ela para também de se ouvir e
dissocia-se:
Sabia, apenas, que de uma hora para outra, era como se um buraco abrisse em
si própria, formando uma grande fenda, dentro e fora dela, um vácuo, com o
qual ela se confundia. Mas continuava, entretanto, consciente de tudo ao
redor. Via a vida e os outros se fazendo, assistia aos movimentos alheios se
dando, mas se perdia, não conseguia saber de si. No princípio, quando o vazio
ameaçava encher a sua pessoa, ela ficava possuída pelo medo. Agora gostava
da ausência, na qual ela se abrigava, desconhecendo-se, tornando-se alheia de
seu próprio eu. (ibidem, p. 40)
CHUEIRI; NADAI | Constituição radical e(m) samba-enredo...
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Em outros termos, ela -se novamente emudecida e denuncia, com isso, a ineficácia de
existir o “direito ao grito” e, inclusive, a própria consciência do direito ao grito, se não houver
meios para que os cidadãos possam ser ouvidos. Retoma-se à náusea de Drummond. Agora
uma náusea ainda mais amarga, pois posterior à tentativa hercúlea de mudar a situação. Ponciá
“foi crescendo e aprendendo a disfarçar o que de dentro vinha” (ibidem, p. 28).
Ela encontra na dissociação de si a maneira de conseguir suportar, de permanecer viva,
ainda que apenas em corpo, que seu ser, sua essência, continua sendo atropelado
violentamente pelo sistema e pela “constituição ao revés”, a Constituição que não lhe alcança,
que não lhe dentro da lama. Nas palavras de Barbosa, “Ponciá é uma pessoa que, como o
avô, foi acumulando partidas e vazios até culminar numa grande ausência”, ela é o “resultado
de fatores sociais” (2023, p. 113).
Mas, ressalva-se, a tempo de não perder o(a) leitor(a) pelo desespero, que esperança,
ainda que feia, desbotada e feita para o presente. Esperança que acontece junto do sangrar e
que, como aponta GH, “é medo” e celebra a carência, “a maior gravidade de viver”, pois assume
a falta existente e tenta fazer com que “a esperança e a promessa se cumpram a cada instante”
(Lispector, 2009, p.173). Precisamente o sangue analisado no ímpeto de descobrir a fonte do
jorro e, consequentemente, o início da ferida que precisa ser curada, passa, na obra de Evaristo,
a escorrer sobre os dedos de Ponciá.
Ponciá Vicêncio, desde que voltara do povoado, mesmo não tendo encontrado
a mãe e o irmão, começou a construir a certeza de que os dois estavam vivos.
(...) Ela não podia desistir. Era preciso viver. A mão continuava coçando e
sangrando entre os dedos. Nesses momentos ela sentia uma saudade imensa
de trabalhar com o barro. (Evaristo, 2023b, p. 69)
O sangue que escorre dos dedos de Ponciá é o sangue de Macabéa atropelada na rua. Ele
ali escorre para lembrá-la de que é preciso viver e de que é preciso continuar com seu trabalho
com o barro (pois “eram trabalhos que contavam partes de uma história. A história dos negros
talvez” (idem, p. 109)). É como um recado proferido por seu próprio corpo, em estado de
resistência, o qual grita, dentro, para que ela continue tentando viver.
Retoma-se à GH que alega que as coisas têm de “se coagular como frutas nos intervalos
que nós chamávamos de vazio” (Lispector, 2009, p.118). Isto é, Ponciá, feito personagem de
Gilberto Gil em Refazenda, acata o ato, enquanto o tempo não traz “a fruta” desejada, e “refaz
tudo”, reformulando a matéria do barro, a que nasça a mudança almejada (1975). Ela
compreende isso quando percebe que precisa se fazer reveladora, por ser “herdeira de uma
história tão sofrida” e porque “enquanto os sofrimentos estivessem vivos na memória de todos,
quem sabe não procurariam, nem que fosse pela força do desejo, a criação de um outro destino”
(Evaristo, 2023b, p. 109).
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Ela, então, que “sua vida, um grão de areia no fundo do rio, tomaria corpo,
engrandeceria, se se tornasse matéria argamassa de outras vidas” e que “era preciso continuar
decifrando nos vestígios do tempo os sentidos de tudo que ficara para trás (idem). Afinal, “a
vida era a mistura de todos e de tudo. Dos que foram, dos que estavam sendo e dos que viriam
a ser” (ibidem, p. 110). Assim, Ponciá-Macabéa, apesar de tudo, consegue sobreviver. Não é
atropelada novamente (ao menos não literalmente). E, ao final da obra, resiste e se constitui
enquanto “elo de herança de uma memória reencontrada pelos seus”, de modo a “não se perder
jamais” (ibidem, p. 110-111).
Não como pensar em direito(s) vigente(s) sem a exigência de justiça (ainda que para
Derrida ela seja aporética). E não como pensar em justiça sem pensar na ativação da
memória (Mate, apud Justino, 2020, p. 66), que se constitui através do movimento do passado.
A ferida ainda sangra, mas o trabalho para estancá-la foi iniciado com os gritos internos e
externos de Ponciá. Ela vive a própria vida, não sendo mais uma mera personagem das
elucubrações do narrador letrado Rodrigo SM, e luta pela memória. Sendo-se, “em carne e
osso”.
4.2 O PRESENTE DA FLOR DE MULUNGU: REMÉDIO PARA A FERIDA
(Dentro da ala 03: Macabéa que supera o grito não ouvido e, sangrando, possibilita
desconstruções à estrutura)
(Figura 2)
“Da lama nasce uma flor
Vai ser a minha vingança
Vermelho cor do amor
Eu sou vermelho esperança”
(Vermelho esperança - na voz de Laila Garin e Chico César)
Supor que Evaristo reescreve o trabalho de Lispector, no ímpeto de “salvar” Macabéa,
seria faltar com a verdade dos fatos e, ainda, desrespeitar a força da própria protagonista, que
não teve a oportunidade de mostrar, ao externo, sua sensibilidade e suas capacidades (apenas
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o(a) leitor(a) bastante atento teve acesso a elas). Ao texto é preciso dar vida, engatilhando seus
dizeres, trazendo-os ao palpável, como se o leitor (ou o jurista) fosse o tradutor de uma
linguagem que se tornou acessível a ele após muito estudo e que deve ser acessível a todas as
pessoas contidas nas palavras ali dispostas. É preciso ver-se no que está escrito. É preciso ver-
se no direito ao grito. E são precisos mecanismos para que Ponciá-Macabéa não sucumba e não
se emudeça após as tentativas de incorporar-se ao texto.
Macabéa, ao contrário do que muito se diz, era bastante dotada da linguagem. “A bem da
verdade, Macabéa residia na casa da linguagem, embora não fosse muito de falar (...) exercitava
a linguagem e muito. Primeiro com ela mesma” (Evaristo, 2023a, p. 16). Supõe-se, pois, que
muitos dos que tiveram contato com sua história e a renegaram, não souberam -la e traduzi-
la. Isto conflui, inclusive, com o que Lispector diz em sua emblemática entrevista concedida à
TV Cultura em 1977, enquanto escrevia A hora da estrela: sua literatura não é sobre
“inteligência” (no sentido de estudos acadêmicos e afins), é sobre “sentir” (1977). E a
“linguagem do sentir” Macabéa tem de sobra.
Consciente disso, o que Evaristo faz, em 2023, é um ato de releitura (frise-se: não de
reescrita) da personagem, com a intenção clara de não mais enclausurá-la à narrativa do corpo
em sofrimento, mostrando que Macabéa é forte justamente da maneira narrada em 1977 e que
é com essa potência que se deve trabalhar. A potência real, que não romantiza a dor, nem se
faz ingênua a ponto de aguardar que a dor se estanque do dia para a noite.
O primeiro passo feito por essa pesquisa e também por Evaristo foi o de “ver” e não
apenas “olhar de relance” a protagonista. Evaristo viu a “Macabéa outra, em estado de breve
floração” (2023a, p. 7), uma pessoa que não é “rasa de conhecimento” (idem), mas sim “capaz
de fingir de morta para enganar coveiro” capaz de enganar o(a) leitor(a) desatento que pensa
-la visto (apenas) morrer (ibidem, p. 15). Evaristo conta a história de Macabéa utilizando-se
de gravuras elaboradas pela artista Luciana Nabuco, as quais intercalam-se com o texto da
narrativa e são delineadas como se vistas por um olho mágico. Representam pedaços de outras
gravuras, que vão se descortinando no decorrer da obra. Prenunciam os próximos capítulos,
elaborando uma linha de raciocínio, via imagem, cuja ordem não faz diferença que se vive
no (eterno) presente.
Macabéa “engana coveiro” porque aparece na obra de Lispector como um corpo franzino,
“só tronco e galhos nus de verde” (ibidem, p. 35). Contudo, não “é” franzina, é tudo que a
compõe apenas estava fora de sua estação. Isto porque, a flor de Mulungu, conforme explana
Evaristo, é aquela que (re)nasce no inverno. Durante as outras estações, ela existe enquanto
potência do porvir e precisamente essa potência representa o próprio florescer, afinal, é a
representação da “esperança” enquanto ato do presente, enquanto aquilo que acontece antes e
durante o próprio acontecer.
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Ou seja: a ordem em que a história é contada não faz diferença, Macabéa sempre foi flor,
mesmo antes de Drummond.
Era tão vulnerável. Odiava-se por isso? Não, odiar-se-ia mais se fosse um
tronco imutável até a morte, apenas capaz de dar frutos mas não de crescer
dentro de si mesma. Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo o que
aprendera, o que vira, e inaugurar-se num terreno novo onde todo pequeno
ato tivesse um significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez.
(Lispector, 2019, p. 78)
A “Béa”, de Mulungu, não é mais (apenas) datilógrafa. Reduzir Macabéa à cópia de
termos que ensejam, séculos, o mesmo final, seria o mesmo de tentar fazer com que um
peixe vivesse na terra. Ele não tem estrutura para viver fora d’água, morreria, esturricado.
Macabéa também, mais uma vez. Por conta disso, agora Béa é cerzideira, parteira e
conhecedora da serventia de várias plantas
14
. É o resultado de se oportunizar à pessoa que ela
se acesse em sua autenticidade e encontre suas capacidades.
“Quem via seus morosos dedos tropeçando nas teclas da máquina de datilografia não
concebia, para suas mãos, o dom de amparar a vida em sua chegada ao mundo. E de outra arte,
ainda Macabéa, sem nenhum alarde, possuía autoria” (idem, p. 19). Evaristo, acima de tudo,
confere à Macabéa o poder de ser autora de sua própria vida. Ela poderia, inclusive, se juntar
aos escritores, cantores e personagens listados na presente pesquisa, reivindicando-se. Ela
ganha o poder de ser constituinte e não apenas constituída em sua vida e nas leis que a
governam (jurídicas, temporais, existenciais, etc). Ela é irmã de Ponciá Vicêncio, aquela que se
despe das amarras de um narrador-outro e passa a participar da escrita do roteiro, autorizando
o texto da própria vida (Evaristo, 2023b, p.110).
Aproximando-se do fim, ou chegando precisamente ao começo, frisa-se que a flor de
Mulungu não foi escolhida por acaso, nem por Evaristo, nem nesse enredo. Seu chá possui
efeitos sedativos, que amansam “feras bravias, senhores e senhoras, no gozo de escravização
do outro, até a profundeza final” (Evaristo, 2023a, p. 19-20). Isto é: sendo-se, Macabéa torna-
se o remédio da própria ferida (“remédios feitos nas urgências da vida” (idem)). Ela, em
contato com o sangue vivo, deixa de ser a flor desbotada de Drummond, e torna-se rubra,
impondo-se justamente nessa cor que antes representava seu fenecimento e agora representa
sua vida mais pulsante (Fi. 2). Afinal, o sangue pode ser associado com feridas abertas, mas,
em sua essência, corre ritmado dentro dos corpos, bombeado pelo coração e emanando vida.
14
É particularmente interessante Conceição Evaristo tornar Macabéa cerzideira, pois, n’A hora da estrela, o
narrador conta como Béa aprendeu, desde pequena, a cerzir e pontua como “ela se realizaria muito mais se se
desse ao delicado labor de restaurar fios, quem sabe se de seda” (2020, p. 23) e como ela se submeteu à
datilografia (sem vontade para tal) diante da influência de sua tia. Fazer de Béa cerzideira, parteira, e muito mais,
portanto, é libertá-la e conduzi-la às suas potências.
CHUEIRI; NADAI | Constituição radical e(m) samba-enredo...
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“Em um quase abrir de olhos, ela diz que tudo amarelo lhe sangra. Tudo lhe sangra em
estrelas. Flores de mulungu vermelhas.” (idem, p. 30-31). O amarelo que lhe sangra é a cor da
Mercedes que a atropelou impiedosa e que agora escorre, libertando-a. O vermelho
incrustado nessa flor de Mulungu, por sua vez, é um coágulo da ferida de Macabéa (ainda
aberta, mas estancada com remédio). É a lembrança do assassinato que não permitiu que a flor
no asfalto nascesse plena e bonita, e que, por isso, precisa ser “gritante” para jamais deixar que
quem a veja esqueça do que ela representa.
Afinal, conforme dito acima, não justiça sem memória. E o vermelho vivo não passará
batido: “Dos gritos de uma, aos ai-ais de outra, uma rede de mil gemidos coletivizados,
banhados de sangue, inunda[rá] o ar” (Evaristo, 2023b, p.24).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
(Ala final do cortejo, ou o “arrastão” na avenida)
“Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida dura até o fim
Mulher do fim do mundo
Eu sou e vou até o fim cantar”
(Mulher do fim do mundo - na voz de Elza Soares)
“Foi preciso tempo. Um tempo profundo, mas de resumidas horas” (Evaristo, 2023a, p.
7) vendo diretamente e sem interferências o corpo de Macabéa estatelado ao chão,
acompanhando cada ínfimo detalhe, para que se pudesse alcançá-la verdadeiramente, e, com
isso, escancarar a ferida aberta do Brasil, calcada em histórias e mazelas que advêm do eterno
presente de “invasões, travessias, exílios, batismos forçados, aldeias queimadas, tutela da
igreja, muita água, quase mar, canoas sobre o Xingu” (idem, p. 16).
A protagonista, agora musa do samba-enredo, pela voz de personagens e cantos,
percorreu-se inteiramente na busca do escancaramento da ferida. Primeiramente morreu.
Depois renasceu irrompendo como flor de resistência (apesar de feia e desbotada) (FIg. 1).
Conseguiu gritar sua dor, sofreu as consequências de um grito esbarrado na disjunção abissal
da fenda entre teoria e prática, sucumbiu. Até entender o poder da memória e criar seu próprio
remédio, transformando-se em flor rubra, marcada pelo vermelho vívido de seu sangue, que
garantirá que ela não mais seja invisibilizada e esquecida (Fig. 2).
É certo que a ferida não foi curada e nem se encontra perto de ser. Mas essa nunca foi a
pretensão do presente trabalho. O que se conseguiu fazer foi coagular brevemente o sangue,
estancando a ferida por um intervalo de tempo, para que se pudesse refletir sobre possíveis
passos a serem trilhados no porvir, sob a égide do vermelho vivo de Mulungu.
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Transpôs-se, com isso, uma espécie de método que pode ser seguido por aqueles que se
interessem em mergulhar no poço de Macabéa, na busca de possíveis releituras do país, até
que alguma solução irrompa, mesmo que a priori feia e desbotada. Um método radical,
espelhado na busca incessante de Lispector em traduzir-se em palavras, de traduzir o interno
para o externo, de alcançar as raízes e expô-las na busca da verdade, daquilo que “é”, daquilo
que pulsa. E espelhado, também, em forma de resistência tão particular do povo brasileiro:
cantar as dores. Colocá-las na avenida, como na epígrafe de Elza Soares, que cantou “a o fim”.
Um método que vira o mundo de cabeça para baixo, de modo a igualmente virar de cabeça para
baixo as teorias sobre o mundo e os direitos constitucionais, lidando com suas leituras e
desleituras, como diz Alícia Ruiz (2021, p. 295).
O livro de Lispector é propositalmente inacabado. O presente artigo é inacabado. A
própria Constituição é inacabada. Afinal, o texto é vivo se for lido, (re)interpretado,
radicalizado. Senão nada seria além de frases soltas, por vezes bonitas transformadas em
“ouro”, mas que não servem o pão a quem tem fome. E Macabéa tinha fome. Evaristo conseguiu
alimentá-la de desejos, de possibilidades, tornando-a seu próprio remédio. Ela permitiu-se ler
a raiz de Béa. Constituiu-se nela para que ela pudesse gritar e manchou-a com seu próprio
sangue para que fosse vista e nunca mais esquecida.
O método é radical e implica a busca interna, a busca externa e a busca que associe o
interno e o externo a ponto de que eles se confundam em ciranda viva que se retroalimenta de
potência e não mais de abismo que se alastra(va) em distanciamento. A Constituição radical
(Chueiri, 2024) exsurge como recado e possibilidade desse método testado
despretensiosamente pela voz de artistas que enxergam o sensível do país e que puderam
parar, ver o corpo de Béa, e chegar até o tenro e tortuoso início da ferida que sangra(va)
copiosamente.
Macabéa, quando atropelada, estava “grávida de futuro” (Lispector, 2020, p.72). Após
sua morte ela pariu-se. Acessou seu poder (de) constituinte e constituiu-se enquanto ser de
direito. Conforme explana Evaristo, “a posição fetal em que ela se encontrava era um indício
de que uma nova vida se abria. Ela ia nascer por ela e com ela e não só, traria consigo a “força
motriz de um povo que resilientemente vai emoldurando o seu grito” (2023a, p. 32). O
emoldurar do grito pode se confundir com o “direito” em si, que existe antes da forma, antes
da norma, para que se transmute na “lei” com forma e com título, capaz de resguardar que
ninguém mais deixe de gritar por “não saber”. O direito enquanto raiz.
É tempo de traduzir radicalmente a vida de Macabéa, para que, do concreto, irrompam
novas flores, com raízes genuínas e que tornem o chão uma terra fértil e não mais coberta por
piche febril. Macabéa será a raiz que, nascendo primeiramente sozinha, puxará as outras raízes
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a incorporarem-se enquanto corpos no cotidiano e enquanto corpos protegidos efetivamente
por direitos escritos em textos.
Em síntese, Macabéa é arte criada das mãos ensanguentadas de barro de Ponciá, feita
para significar mutilações e ausências e incorporar pedaços excedentes (Evaristo, 2023b, p.
114). É, também, o símbolo da paralisação do tempo (Chueiri, 2011). A paralisação que foi vista,
sentida, estudada, acolhida, a ponto de tornar-se remédio.
A ferida continua aberta? Sim. Descobre-se sua causa? Apenas algumas. Mas ao menos
a dor sentida não mais emudece a protagonista. Ela cantará até o fim desse mundo, para que
irrompam novos (mundos). Ela viverá e agirá, “apesar de”.
Brasil, chegou a hora de ouvir as Marias, Mahis, Marielles, Malês
[e Macabeás].
(História para ninar gente grande - Samba-enredo da Mangueira, 2019)
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Idioma original: Português
Recebido: 14/12/25
Aceito: 25/02/26