ANAMORPHOSIS – Revista Internacional de Direito e Literatura, v. 11, n. 1, e1334
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num exercício de autoflagelo ficava a copiar o nome e a repeti-lo, na tentativa de se achar, de
encontrar o seu eco” (idem, p. 26). Suas criações em barro eram miniaturas de vida, “para que
ela coubesse e eternizasse sobre o olhar de todos, em qualquer lugar” (ibidem, p. 89).
Entretanto, quando chega na cidade, ela se depara com um local feito completamente
contra ela, relembrando a passagem em que Rodrigo narra a viagem de Macabéa (Lispector,
2020, p.13). Escancara-se, mais uma vez, o abismo existente entre “dois brasis”, um que prevê
a “terra serena da promissão” e o outro, do sufoco, da “agressão da cidade inconquistável”
(Portella, 2017, p. 2012). Em outras palavras: um Brasil que prevê que todos são iguais perante
a lei, mas que só ouve o grito de alguns corpos específicos. É ali que moram Macabéa e Ponciá
e é ali que mora “a lei” do país: “Ponciá queria ter a voz alta e forte como a dos [homens]
brancos” (Evaristo, 2023b, p. 62).
Ponciá é atropelada, também. Não literalmente por um carro, mas por toda sorte de
preconceitos advindos do “passado” colonial e escravocrata do país. Ela tenta se abrigar na
igreja e é expulsa para não atrapalhar as senhoras que gostam de rezar logo cedo. Ela namora
um homem que, assim como Olímpico de Jesus fazia com Macabéa, também não a compreende
e a ridiculariza – ainda em maiores proporções, pois a violenta constantemente. Ela começa,
então, a, paulatinamente, deixar de ser a pessoa que “trabalharia, juntaria dinheiro, compraria
uma casinha e voltaria para buscar sua mãe e seu irmão” (Evaristo, 2023b, p. 39) para recair
em reflexões tais como:
O que adiantara? A vida escrava continuava até os dias de hoje. Sim, ela era
escrava também. Escrava de uma condição que se repetia. Escrava do
desespero, da falta de esperança, da impossibilidade de travar novas batalhas,
de organizar novos quilombos, de inventar outra e nova vida. (idem, p. 72)
A Macabéa enquanto Ponciá Vicêncio é, portanto, a Macabéa que tem consciência de que
merece mais, mas não consegue alcançar o que existe na promessa, nas previsões
constitucionais. Ela sofre em demasia e consegue narrar com precisão a dor de ser quem se é e
ser rejeitada, cotidianamente, por conta disso. Ela passa a vagar, em solidão e em completa
desesperança por um ambiente hostil que a rejeita. A ferida, exposta, perde a casca e sangra
em desespero, alastra-se em um grande vazio no qual Ponciá-Macabéa grita(m), mas sua voz
não aparece do lado externo. Por não conseguir ser ouvida, ela para também de se ouvir e
dissocia-se:
Sabia, apenas, que de uma hora para outra, era como se um buraco abrisse em
si própria, formando uma grande fenda, dentro e fora dela, um vácuo, com o
qual ela se confundia. Mas continuava, entretanto, consciente de tudo ao
redor. Via a vida e os outros se fazendo, assistia aos movimentos alheios se
dando, mas se perdia, não conseguia saber de si. No princípio, quando o vazio
ameaçava encher a sua pessoa, ela ficava possuída pelo medo. Agora gostava
da ausência, na qual ela se abrigava, desconhecendo-se, tornando-se alheia de
seu próprio eu. (ibidem, p. 40)