“PARA ENFEZAR COPACABANA”
LIMA BARRETO CONTRA O HIGIENISMO DAS REFORMAS URBANAS DO RIO DE JANEIRO
Resumo
“É preciso não confundir a cidade com o discurso que a descreve”, adverte Marco Polo ao descrever Olívia na ficção de Calvino, que incorpora uma metáfora para a cidade do Rio de Janeiro no começo do século XX, onde viveu Lima Barreto. Para “enfezar” Copacabana, Lima Barreto nomeia sua casa em Todos os Santos de Vila Quilombo, em alternativa à arquitetura hedionda da Avenida Central que variava entre “Rio-Paris barato ou mesmo Buenos Aires de tostão” (Barreto, 1956, p.31). Este trabalho analisa a crônica “O Convento” para responder à seguinte pergunta: como relacionar as reformas urbanas ao recrudescimento de estratégias genocidas do Estado (Nascimento, 2016)? A hipótese é a de que o autor vê nas reformas a intenção de apagar também a presença negra da cidade. “Quando, entretanto, me faço cidadão da minha cidade não posso deixar de querer de pé os atestados de sua vida anterior, as igrejas feias e os seus conventos hediondos.” A presença negra no Rio constitui muitos desses “atestados de vida anterior”. “A mentira está nas coisas” que, contradizendo o discurso, mostram-se como são: o Rio de Janeiro de Pereira Passos incorpora a Olívia de Calvino.