A MISTICIDADE DO ESPELHO EM NIKETCHE: REFLEXOS E REFLEXÕES SOBRE A MORAL E A POLIGAMIA
Resumo
A partir dos relatos de Rami em Niketche: uma história de poligamia, Paulina Chiziane revela o cotidiano desta moçambicana presa em uma realidade conservadora e moralista que molda sua percepção sobre o casamento monogâmico e o papel da mulher na sociedade. Porém, sua vida é revirada quando descobre as famílias que seu marido mantém com outras mulheres. A moral cristã condena a existência de relações extraconjugais, guiando os princípios de Rami; contudo, tais convicções são alteradas durante da narrativa, por meio dos diálogos que a protagonista tem com seu reflexo no espelho. Apesar das semelhanças físicas, a imagem refletida expõe considerações morais opostas às de Rami, e a ajuda a aceitar a poligamia. O espelho enquanto elemento místico é ponto de reflexão entre o que a protagonista inicialmente considera sobre o casamento monogâmico e papel da mulher, e também reflexo de seus pensamentos íntimos. Assim, através da análise literária do romance, e bibliográfica sobre a moral, interseccionando-se com estudos de gênero, etnia e classe, o objetivo deste trabalho é mostrar que a imagem refletida através do espelho critica e faz reflexões sobre as proposições moralistas que Rami coloca sobre a poligamia, mostrando-se, na verdade, como real pensamento da protagonista.