A PAIXÃO SEGUNDO O INUMANO: CLARICE LISPECTOR E A TRADUÇÃO COMO PRÁTICA POLÍTICA DO DIREITO À EXISTÊNCIA
Palavras-chave:
Clarice Lispector, Inumano, Existências mínimas, Tradução, DireitoResumo
O artigo analisa a escrita de Clarice Lispector como prática de desestabilização ontológica, articulando estranhamento e epifania a uma crítica ao humanismo hegemônico. A leitura de obras como A Hora da Estrela, Amor e A Legião Estrangeira evidencia personagens situadas numa zona limítrofe entre reconhecimento e apagamento, em que o encontro com o animal, o objeto ou o outro social explicita a presença do inumano como força constitutiva do humano. Em diálogo com David Lapoujade, o texto mobiliza o conceito de existências mínimas para pensar sujeitos privados de plena realidade, cuja instauração depende de gestos estéticos e políticos. A aproximação com Gayatri Chakravorty Spivak desloca a questão para o campo da escuta: o subalterno não carece de voz, mas de reconhecimento. Assim, a tradução é concebida como prática ética que cria condições de inteligibilidade e reivindica o direito de existir no espaço comum, na qual literatura e tradução operam como formas de advocacia, ampliando o campo de quem pode ser reconhecido como sujeito de direitos.