CORPO, SEXUALIDADE E A CORAGEM DA VERDADE: FOUCAULT LEITOR DE EURÍPIDES
Palavras-chave:
Parresía, Verdade, Tragédia Grega, Sexualidade, JustiçaResumo
O artigo investiga como a tragédia Íon, de Eurípides, articula as relações entre verdade, corpo e justiça a partir da noção de parresía. Em Foucault, a parresía — o dizer-a-verdade sob risco — constitui uma prática ética e política vinculada à democracia e à justiça. Parte-se da hipótese de que, na tragédia, essa prática não se distribui de forma neutra, sendo atravessada por marcadores como corpo, gênero e sexualidade. A análise contrapõe as figuras de Íon e Creusa: enquanto o primeiro encarna um corpo casto, cuja relação com a verdade se dá sob a forma da busca e da disponibilidade, Creusa fala a partir da experiência da violência, que a inscreve diretamente no campo do dizer-verdadeiro. Argumenta-se que a sexualidade, especialmente na forma da violência, opera como um dispositivo que condiciona a emergência da parresía, sobretudo quando se trata da voz feminina. O referencial teórico articula as leituras foucaultianas dos cursos O governo de si e dos outros e A coragem da verdade às reflexões de Nicole Loraux sobre corpo e política na tragédia. Por fim, sustenta-se que a tragédia evidencia como o acesso à fala verdadeira pode depender de experiências que reconfiguram as próprias condições de justiça e reconhecimento.