LEITURA HERMENÊUTICA DE QUARTO DE DESPEJO E O DESAFIO À NEUTRALIDADE NA INTERPRETAÇÃO JURÍDICA
Palavras-chave:
Hermenêutica, Interpretação jurídica, Literatura marginalResumo
RESUMO: O presente trabalho investiga, a partir de uma abordagem hermenêutica, como a obra Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, tensiona os paradigmas tradicionais da interpretação jurídica. Parte-se do problema da pretensa neutralidade da hermenêutica jurídica, orientada pela busca de universalidade e objetividade, que frequentemente desconsidera as condições concretas de produção do sentido. O objetivo consiste em analisar de que modo a escrita da autora, marcada pela experiência da pobreza, da fome e da exclusão social, constitui uma forma legítima de interpretação do mundo, capaz de desafiar o monopólio do discurso jurídico. A pesquisa adota metodologia teórica e bibliográfica, com base na análise da obra literária e no diálogo com a hermenêutica filosófica e jurídica. Verifica-se que a autora produz uma interpretação situada, na qual a linguagem se articula como instrumento de resistência e produção de conhecimento, deslocando a centralidade dos saberes institucionalizados. Conclui-se que a obra propõe uma hermenêutica emancipatória, ao valorizar vozes marginalizadas e evidenciar a necessidade de reconectar o Direito à realidade social.